Brasília - Senador Aécio Neves fala à imprensa após audiência com o presidente Michel Temer no Palácio do Planalto (Wilson Dias/Agência Brasil)

Aécio reprova “jogo fratricida” entre PSDB e DEM e considera um erro rompimento da aliança

Deputado lembra que os dois partidos são aliados históricos por mais de 20 anos e que o rompimento prejudicaria ambas as legendas. Ele acredita ainda que há um esforço do Itamaraty para melhoria das relações com a China e resgate das tradições da nossa política externa

Em entrevista ao Estadão, o deputado e ex-presidente do PSDB Aécio Neves (MG) classificou como “erro” a ameaça de ruptura entre seu partido e o DEM.  “Não tem muito sentido esse jogo fratricida entre nós. Somos um partido que ainda está vivendo um momento de dificuldade, reorganização, é um erro esse atropelo entre nós, que fomos aliados históricos por mais de 20 anos. É um jogo de perde-perde, um fragilizando o outro”.

Desde 1994, o PSDB e o DEM são aliados em todas as eleições presidenciais, mas nas últimas semanas os partidos travaram uma “guerra fria” em busca de protagonismo para 2022.

Aécio também reprovou as declarações do presidente Jair Bolsonaro de que a China teria fabricado o coronavírus para causar uma guerra química.

Questionado sobre o conflito sobre o PSDB e DEM, Aécio Neves afirma que não há sentido o jogo fratricida. “Somos um partido que ainda vive um momento de dificuldade, é um erro esse atropelo entre nós. É um jogo de perde-perde, um fragilizando o outro”.

Sobre a possibilidade de Geraldo Alckmin sair do partido se não puder ser candidato ao governo de São Paulo nas próximas eleições, o deputado afirma que Geraldo é um quadro histórico do partido. Permitir que ele saia, segundo Aécio, é um erro gravíssimo.

“O governador Alckmin deve ter as condições de articular internamente a candidatura que achar mais adequada. Não pode ser tirada dele a possibilidade dessa disputa, independentemente das qualidades do Rodrigo Garcia, que também respeito. É preciso um esforço mais amplo do partido, inclusive nacional, para que Geraldo fique no PSDB, é um quadro do ponto de vista eleitoral muito forte. Esse é um sentimento que eu tenho e muitas outras lideranças têm, mas é uma questão a ser debatida em São Paulo”.

Aécio está há três meses no comando das Relações Exteriores da Câmara. O Estadão questionou se não deve haver uma cobrança maior ao governo. “Nossa comissão não é feita para derrubar ministro. É feita para prestar esclarecimento, debater os temas. Temos uma oposição muito dura e todas as perguntas foram feitas. Foi mesmo por uma questão de estilo. Não cabe a mim comentar a postura do Senado. Em todas as oitivas até hoje foi mantido um tom muito firme, sempre muito duro, mas também respeitoso, e é como continuaremos a fazer”.

O jornal acrescentou que, mesmo com a saída de Ernesto Araújo, o governo mantém o discurso agressivo contra a China. E perguntou se isso não prejudica a cooperação internacional que todos deveriam defender para superar a crise. Aécio argumentou: “Essas declarações em nada ajudam a restabelecer as relações, mas hoje há um esforço do Itamaraty. Tenho conversado com embaixadores, com o ministro Carlos França, para resgatar as tradições da nossa política externa. Contra o alinhamento automático, a não submissão a qualquer questão ideológica para tomar decisões. Acho que há um esforço de retomada das tradições da nossa política externa. Vejo hoje a situação muitas vezes diferente: respeito aos organismos multilaterais, mudança profunda na visão de mundo do embaixador Carlos França e um esforço de valorização dos organismos multilaterais”. 

Questionado se o país poderá ter uma nova diplomacia por parte do governo, Aécio respondeu: “Participei de uma reunião semana passada com o nosso embaixador na OMC (Alexandre Parola). Há um esforço dele de destravar negociações de insumos, vacinas com outros países. Estive com embaixadores de várias partes do mundo. Eu acho que há uma nova visão e devemos apoiar essa nova visão. Não é questão de apoiar ou ser oposição ao governo, é uma questão do Brasil, que não pode continuar com uma postura de isolamento internacional. É isso que nós esperamos, e a comissão vai apoiar o aprofundamento dessas relações multilaterais e a superação dos entraves construídos na gestão anterior (de Ernesto Araújo)”.

O Estadão lembrou que Aécio falou na semana passada com o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, e perguntou como foi a conversa. O deputado disse: “Ele é muito cauteloso, como os embaixadores devem ser. Afirma que não existe um problema político, hoje, entre o Brasil e a China, mas entende que é preciso que o ambiente seja mais sadio. Ele não coloca esse atraso (do envio de insumos para as doses da Coronavac, vacina chinesa) como uma retaliação. Até porque não seria sequer inteligente para a China, com as relações que tem com o Brasil, passar a ideia de que tenha retaliado por uma questão política. Ele diz que a demanda sobre a China por insumos aumentou de forma violenta. Eles estão fornecendo vacinas para cerca de 100 países, são mais de 300 milhões de doses”. 

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