O presidente Jair Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, falam à imprensa na entrada do Palácio da Alvorada.

Ambientalista afirma que “sinal verde” de Bolsonaro incentivou desmatamentos e queimadas

Carlos Nobre, cientista e ambientalista se diz preocupado com o discurso e as omissões de Bolsonaro com relação ao meio ambiente. Ele defende a conscientização de todos e medidas efetivas para que a lei seja cumprida, a fim de evitar a destruição florestal

Em entrevista ao Poder360, o cientista e ambientalista, Carlos Nobre afirma que o discurso adotado por Bolsonaro desde a campanha de 2018 joga contra a preservação ambiental. Dados compilados pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) mostram que a Amazônia brasileira perdeu 87.762 Km² por desmatamento ou queimadas ao longo dos 11 primeiros meses de 2020.

Questionado sobre a mudança na preservação ambiental desde que Bolsonaro assumiu a presidência, Nobre se diz preocupado com o cenário observado na Amazônia. Segundo ele, houve um retrocesso muito grande desde que Bolsonaro assumiu a presidência.

Para o ambientalista, a falta de ações do governo foi determinante para o agravamento da situação. Segundo ele, a campanha política do presidente já demonstrava a falta de preocupação com relação ao meio ambiente, inclusive com o discurso de enfraquecimento da lei ambiental. “Isso passou uma mensagem muito forte para o setor da ilegalidade do agronegócio, que pode ser muito pequeno, mas o potencial de destruição é gigantesco”, avalia o ambientalista.

“Isso deu a esse setor, muito associado com o crime organizado, um sinal verde. O crime ambiental, que rouba madeira, que coloca fogo, sentiu-se muito empoderado. E eles se sentiram com um perigo pequeno de serem presos se cometerem ilegalidades’.

Nobre afirma que não houve fatores externos que incentivaram o desmatamento e as queimadas, como, por exemplo, influência do mercado externo. Na verdade, foi o contrário, houve ameaças de vários países, no sentido de diminuir o desmatamento. Em 2015 e 2016, não havia mudança do discurso, o Brasil passava por uma recessão e houve falta de fiscalização. “Você tem que ter todo um trabalho de inteligência. O trabalho do Brasil até 2014, com destruição dos equipamentos e operações da Polícia Federal de inteligência [era bom], mas isso tinha um custo. Com muita eficácia e gastando muito recurso de fiscalização, teve uma efetividade. Em 2015, os recursos caíram muito. Na época diminuiu a fiscalização. O crime sempre existiu”.

Para o ambientalista, a nomeação de Ricardo Salles, atual ministro do Meio Ambiente, foi mais uma mensagem claro do presidente, como se quisesse acabar com o ministério. Salles já havia feito, em 2016 e 2017, uma má gestão na Secretaria Estadual do Meio Ambiente de São Paulo.

Questionado sobre a fala de Salles de que Bolsonaro deveria “passar a boiada” com relação à preservação ambiental, Nobre afirmou: “O que está segurando a ‘boiada’ –o que não é só simbólico, ele quer abrir as fronteiras do Cerrado para a Amazônia para boi, o boi é o símbolo da posse de terra… a partir daquilo o Supremo Tribunal Federal se sentiu muito mais empoderado de bloquear, porque tudo aquilo ficou claro. Ele [Salles] tentou derrubar o código da Mata Atlântica e o STF segurou”.

Preocupações para 2021

Para o ambientalista as preocupações com relação a 2021 serão as mesmas. “Esperamos que essa seca não continue em 2021, talvez na Amazônia não seja tão seco, [mas] ainda não dá para dizer e agora não há nenhuma sinalização de mudança na política ambiental”.

Questionado sobre as medidas que podem ser feitas pelo governo para reduzir as áreas queimadas ou desmatadas, Carlos Nobre diz que o mais importante é cumprir a lei. “Na Amazônia, tem que impedir o desmatamento. Voltar a fazer o que deu certo até 2014, voltar a fazer em uma proporção até melhor. A perda desse protagonismo nos colocou como pária ambiental. É possível sim e se sabe o caminho”.

Medidas dos cidadãos

Para Nobre, todos têm um papal importante com relação à proteção do meio ambiente. “Todo mundo cobra a fiscalização [do governo], mas nós temos um papel muito importante para fazer. Se todos os brasileiros exigirem o certificado de rastreamento da carne e da madeira quando forem comprar, isso pode diminuir muito [o desmatamento e as queimadas]. Não só se manifestar nas pesquisas de opinião, não só se manifestar politicamente, mas o papel do consumidor pode ter um impacto muito importante”.

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