Após decisão favorável a Lula, especialistas dizem que Bolsonaro tem “rival à altura”

Com anulação de todos os processos de Lula na Lava jato, especialistas afirmam que decisão trará mudanças importantes ao cenário político do país

O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, anulou todas as condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela Justiça Federal no Paraná relacionadas às investigações da Operação Lava Jato. O ministro do STF entendeu que a 13ª Vara Federal da Subseção Judiciária de Curitiba não era o juízo competente para processar e julgar casos envolvendo o petista. Dessa forma, o ex-presidente Lula recupera os direitos políticos e volta a ser elegível.

A decisão livra o ex-juiz federal e ex-ministro da justiça e Segurança Pública Sergio Moro do julgamento sobre a suspeição nos processos contra Lula na Lava Jato, após vazamento de diálogos entre procuradores do Ministério Público do Paraná (MPPR).

10 habeas corpus e quatro reclamações apresentadas pela defesa de Lula perderam o objeto. Assim, a 2ª Turma do STF fica impedida de julgar se Moro foi parcial ou não.

Especialistas avaliam que essa decisão traz mudanças importantes ao cenário político do país. Agora, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem um adversário à altura.

Em conversa com o jornal Metrópoles, o cientista político João Feres, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) avaliou que “O ministro Edson Fachin ficou encurralado com a situação e resolveu, ele mesmo, usar da tecnicidade da ação para extinguir os objetos apresentados pela defesa e, assim, não tem como alegar a suspeição de Moro nas ações, o que tira o risco de o ex-ministro de ser declarado juridicamente suspeito”.

“Ficou evidente que havia, no mínimo, suspeitas fortíssimas de envolvimento do Moro e do [Deltan] Dallagnol nas ações contra o ex-presidente. Então, Fachin, antecedendo que seria derrotado, transfere o foro de Curitiba para Brasília. Esse processo, ainda que vá para o plenário do STF, será difícil reverter. Como também é muito difícil uma condenação de Lula na Justiça Federal do Distrito Federal”, complementa o cientista político Eduardo Grin, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

João Feres afirma que o veredito do ministro foi em tempo, pois dessa forma antecipa o desgaste eleitoral. Isso porque a deliberação aconteceu mais de um ano antes das próximas eleições, o que permite, segundo o docente, um período maior para o sistema se estabilizar. “A elegibilidade de Lula desestabiliza o sistema político-eleitoral, mas a decisão é boa, pois ocorre bem antes do pleito, então dá tempo de o cenário se estabilizar até as eleições – ao contrário do que seria caso Lula se tornasse elegível nas vésperas”, explica.

Leia também:
Libertadores: Mané Garrincha poderá receber até 18 mil torcedores em jogo do Flamengo

Nesse sentido, Grin ressalta que possíveis candidatos que têm se mostrado antagônicos tanto ao atual mandatário quanto ao Partido dos Trabalhadores (PT) – sigla do ex-presidente Lula –, como o governador de São Paulo, João Doria; o apresentador Luciano Huck; o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM); e, sobretudo, o ex-governador do Ceará Ciro Gomes, perdem fôlego na corrida eleitoral, uma vez que Lula criará, segundo o cientista político, um forte campo gravitacional ao seu redor.

“A gente, desde já, vai voltar a um cenário que se julgava esgotado depois de 2018, que é o da polarização política. Temos um candidato cada vez mais caminhando para a extrema direita, que é o Bolsonaro, e um candidato de esquerda, [que é Lula], o que significa dizer que a chamada candidatura de centro no Brasil, essa gelatina orbitada em torno de Huck, Moro, Maia, Doria, Ciro… enfim, essa maçaroca que ninguém sabe o que sai daí,esse agrupamento, por sua indefinição de nomes, naufragou. Vai ser muito difícil fazer crescer uma outra candidatura que não seja a de Lula e a de Bolsonaro”, completa Grin.

Na manhã da última segunda-feira, em entrevista ao UOL, Ciro Gomes, antes da decisão do ministro, pontuou já ter visto um filme sobre a discussão gerada em torno da elegibilidade de Lula e afirmou, “Não contem comigo para esse circo mambembe, porque a tragédia brasileira não permite mais contemporização”.

“A decisão muda para o PT, que já tinha colocado Fernando Haddad em cena”, explica Marco Teixeira. “Mas Lula é uma pessoa experiente nos termos políticos. Ele pode até voltar a falar com o Ciro Gomes e, quem sabe, fazer acontecer no Brasil o que aconteceu na Argentina, onde a ex-presidente Cristina Kirchner foi vice de Alberto Fernández. Agora, Doria talvez tenha de buscar alinhamento com o DEM, pois o centro fica mais fragilizado”, explica o doutor em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC).

“A questão é que as posições entre Bolsonaro e Lula se inverteram. Em 2018, Bolsonaro era um franco-atirador; agora, é o telhado de vidro. Ou seja, o efeito de um discurso antipetista, uma vez que Bolsonaro está no poder, perde um pouco do efeito. O jogo está aberto”, afirma o cientista político.

Pesquisa

Leia também:
De acordo com Lira, presidente tem direito constitucional de vetar Fundão

De acordo com uma pesquisa de opinião que mede o potencial de votos de dez possíveis candidatos nas eleições presidenciais de 2022, apenas Lula demonstra ter mais capital político que Bolsonaro. No levantamento, feito pelo Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria), novo instituo de pesquisas da estatística Márcia Cavallari (ex-ibope), 50% dos entrevistados disseram que votariam com certeza ou poderiam votar em Lula se ele se candidatasse novamente à presidência, e 44% afirmaram que não escolheriam de jeito nenhum. Já Bolsonaro, aparece com 12 pontos porcentuais a menos no potencial de voto, com 38%, e 12 a mais na rejeição, 56%. A pesquisa ouviu 2.002 pessoas em 143 municípios do país. Os números foram divulgados no domingo (7) pelo jornal O Estado de S.Paulo.  

Leia também:
Jair Bolsonaro afirma que não admitirá contagem “secreta” de voto do TSE

Atrás de Lula e Bolsonaro no ranking de potencial de voto estão Sergio Moro (31%), Luciano Huck (28%), Fernando Haddad (27%), Ciro Gomes (25%), Luiz Henrique Mandetta (15%), João Doria (15%) e Guilherme Boulos (10%). Com exceção de Moro, cuja taxa de rejeição é de 50% todos os descartados como opção de voto pela maioria do eleitorado.

Print Friendly, PDF & Email