Após declaração de Bolsonaro contra Biden, militares tentam valorizar a diplomacia como prioridade

Fala do presidente causou mal-estar entre os militares, que tentam reparar os danos das declarações reforçando a importância da diplomacia

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), na terça-feira (11), após silêncio sobre o resultado das eleições americanas, se referiu a uma fala do presidente-eleito, Joe Biden, que declarou que se o chefe do estado brasileiro “não frear o desmatamento na Amâzonia, o país sofreria sanções econômicas.”

Bolsonaro, apontando para Erneste Araújo, ministro das Relações Exteriores, disse: “Assistimos, há pouco, um grande candidato a chefia de Estado dizer que, se eu não apagar o fogo da Amazônia, ele levanta barreiras comerciais contra o Brasil. E como é que podemos fazer frente a tudo isso? Apenas a diplomacia não dá, não é, Ernesto? Quando acaba a saliva, tem que ter pólvora, senão, não funciona. Não precisa nem usar pólvora, mas tem que saber que tem”.

Mourão, no entanto, minimizou a fala do presidente. “Ele se referiu a um aforismo antigo que tem aí que diz que quando acaba a diplomacia entram os canhões, foi isso a que ele se referiu”, disse, ao ser questionado por jornalistas, ontem. Perguntado se as falas poderiam provocar consequências às relações do Brasil com os Estados Unidos, afirmou: “Não causa nada. Isso aí tudo é figura de retórica. Vamos aguardar, dê tempo ao tempo (…) Vamos ter calma, tá bom?”

O jornal Correio Braziliense consultou um general do Exército, que afirmou que a atitude de Jair Bolsonaro não era esperada. Para o general, a fala do presidente provocou perplexidade em quem entende a capacidade militar e a importância da diplomacia. A expectativa é de que não passe disso. As declarações de Bolsonaro, segundo o general, é o avesso do que é o campo militar e que sua fala gera desconforto.

Declarações

O deputado Coronel Amando (PSL-SC), ex-vice-líder do governo, disse que o país precisa dar uma resposta com relação às declarações que envolvem a Amâzonia.  “É claro que isso não agrada a um ou a outro (na ala militar do governo) e é claro que não vamos entrar em guerra com os EUA, mas temos de nos posicionar”

O senador Major Olimpo (PSL-SP), membro da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional no Senado, diz ter conversado com oficiais das forças Armadas e que fica claro o receio deles de que o mundo avalie que o pensamento de Bolsonaro se repita entre os militares.

Eduardo Viola, professor titular de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), achou que a fala de Bolsonaro tem um impacto negativo. “Claro que, ao mesmo tempo, é uma bravata; não tem nenhuma consequência prática. Mostra claramente que o presidente continuando em alinhamento com (Donald) Trump, não aceitando a derrota”

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