Brasil cai quatro posições no ranking da liberdade de imprensa e entra em “zona vermelha”

Pelo quarto ano consecutivo, o país cai no ranking. Somente durante o governo Bolsonaro o país perdeu nove posições. Ataques verbais, insultos, agressões e até assassinados contra jornalistas ajudam a colocar o país nessa situação

O Brasil caiu 4 posições no Ranking Mundial de Liberdade de Imprensa, publicado anualmente pela ONG Repórteres sem Fronteiras. O país aparece no 111º lugar na edição 2021 da lista, divulgada nesta terça-feira (20). Em 2021, antes da chegada de Jair Bolsonaro ao poder, o Brasil era o 102º colocado. É o quarto ano consecutivo em que o Brasil desce na classificação.

Pela primeira vez em 20 anos, o país saiu da “zona laranja” e entrou na “zona vermelha” do levantamento, na qual a situação para o trabalho da imprensa é considerada mais difícil.

A situação brasileira é considerada como pior que em países como Bolívia, Guiné-Bissau, Equador, Ucrânia, Libéria, Paraguai, Etiópia ou Moçambique, além de se aproximar de cenários como o do Congo, Gabão ou Nigéria.

No mapa existe também, uma última classificação, a negra, onde estão regimes como os da China, Cuba e Venezuela.

A pesquisa é a maior referência sobre a situação da liberdade de imprensa no mundo e avalia a situação do jornalismo em 180 países. Leva-se em consideração pluralismo, independência das mídias, ambiente e autocensura, arcabouço legal, transparência, qualidade de infraestrutura de suporte à produção da informação e a violência contra a imprensa.

“O Brasil enfrenta problemas históricos e estruturais no campo da liberdade de expressão. É o segundo país da América Latina com o maior número de profissionais de imprensa assassinados na última década, atrás apenas do México. Ataques verbais, insultos, ameaças e agressões físicas contra jornalistas são frequentes no país”, aponta a entidade.

“O Brasil também tem um cenário de concentração excessiva da propriedade de meios de comunicação, o que prejudica a qualidade do pluralismo e da diversidade do horizonte midiático”, explica a organização.

A campanha eleitoral de 2018, em particular, a chegada ao poder do presidente Jair Bolsonaro, foram momentos que marcaram “um ponto de inflexão” no país.

“Os atritos esporádicos entre os governos anteriores e a imprensa foram substituídos por uma lógica de desmoralização e ataques sistemáticos promovidos por autoridades das mais altas esferas de poder”, alerta a RSF.

“O presidente Bolsonaro, seus filhos que ocupam cargos eletivos e vários aliados dentro do governo insultam e difamam jornalistas e meios de comunicação quase que diariamente, escancarando o desapreço pelo trabalho jornalístico. Multifacetados, estes ataques seguem uma estratégia cada vez mais estruturada de semear desconfiança no trabalho dos jornalistas, de destruir a credibilidade da imprensa como um todo e, gradualmente, construir a imagem de um inimigo comum”, diz.

Negacionismo

Ao lado da Venezuela (148º), Bolsonaro também é citado como um dos líderes que promoveu desinformação através do fomento e recomendação do uso de medicamentos cuja eficácia nunca foi comprovada pela medicina.

Na América Latina, outros exemplos também foram destacados. Na Guatemala, o presidente Alejandro Giammattei sugeriu “colocar os meios de comunicação em quarentena”. Os jornalistas foram acusados de superestimar a gravidade da crise sanitária e de semear o pânico na esfera pública. “O negacionismo adotado por diversos dirigentes autoritários, como Jair Bolsonaro no Brasil, Daniel Ortega na Nicarágua, Juan Orlando Hernández em Honduras e Nicolás Maduro na Venezuela, tornou a tarefa dos meios de comunicação especialmente difícil. Estes últimos aproveitaram a onda de choque causada pela crise para fortalecer seu arsenal de censura e complicar ainda mais o trabalho informativo da imprensa independente”, destacou a entidade.

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