Brasil tem PIB positivo, mas entra no mapa da fome

O PIB brasileiro cresceu mais do que as projeções mais otimistas apontavam, porém, o aumento da pobreza é agravado pelo desemprego recorde

De acordo com dados divulgados recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o crescimento de 1,2% no Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre de 2021 ficou acima das expectativas do mercado, em torno de 0,7%. Mesmo com o resultado positivo, o Brasil está de volta ao mapa da fome. Esse cenário se agravou devido à desigualdade social, em meio à pandemia que já matou mais de 470 mil brasileiros.

Tal cenário vai na contramão das estimativas mais otimistas do mercado, que passou a prever expansão do PIB de 5% a 5,5%, logo após os dados do IBGE. Esses resultados mostram a baixa capacidade de crescimento do país.

Especialistas destacam que a recuperação é heterogênea, com o principal motor de crescimento, o consumo, ainda no campo negativo. A produção industrial encolheu 1,3%, em abril, e ficou 1% abaixo do nível pré-crise, de fevereiro de 2020.

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O setor de serviços, o que mais emprega, está distante do patamar pré-pandemia e só vai conseguir ter uma retomada mais forte no último trimestre do ano, se o governo realmente conseguir vacinar a população, conforme o prometido.

Estudo publicado em abril pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made/USP), denominado “Gênero e raça em evidência durante a pandemia no Brasil: o impacto do auxílio emergencial na pobreza e na extrema pobreza”, estima aumento de 9 milhões de pessoas em situação de pobreza e insegurança alimentar um ano após o início da pandemia.

De acordo com a pesquisa, em 2020, a taxa de brasileiros na pobreza caiu de 25% antes da pandemia, para 20% com o auxílio emergencial de R$ 600. A fatia de pessoas na extrema pobreza caiu de cerca de 7%, em 2019, para 3%, no ano passado. “Em 2021, a taxa de pobreza extrema teria passado a mais de 10%. Tratar-se-ia de piora substantiva durante o ‘apagão’ do auxílio emergencial”, destaca o economista Pedro Fernando Nery, consultor de economia do Congresso Nacional.

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A economista Luísa Cardoso Guedes e Souza, doutora em demografia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e uma das autoras do estudo do Made/USP, alerta que “de acordo com o IBGE, o Brasil votou a mapa de fome em 2018”.

“Calculamos que, em 2019, antes da pandemia, a taxa de extrema pobreza no país era de 6,6%, o que representa 13,9 milhões de pessoas. Já a taxa de pobreza era de 24,8%, afetando 51,9 milhões de brasileiros. Considerando o valor médio de R$ 250 estabelecido para o auxílio emergencial em 2021, vemos que a taxa de extrema pobreza esse ano deverá ser de 9,1% (19,3 milhões de pessoas) e a de pobreza de 28,9% (61,1 milhões de pessoas). Assim, após um ano de pandemia, teremos um acréscimo de aproximadamente 9 milhões de brasileiros em situação de pobreza e insegurança alimentar”, afirma.

Segundo a economista, os beneficiários do auxílio emergencial são as pessoas de baixa renda, em maior situação de vulnerabilidade. “Apesar do aumento do PIB no primeiro trimestre de 2021, o consumo das famílias não acompanhou esse crescimento. A escalada recente da inflação e, especialmente, o aumento os preços dos alimentos impactam, sobretudo, as famílias mais pobres”. De acordo com a demógrafa, os resultados mostram que “o auxílio emergencial de 2021 é insuficiente para conter a perda de renda da população” em função da pandemia.

“Considerando que não sabemos se o auxílio será estendido por um período maior de tempo nem como será o ritmo da vacinação até o final do ano, é muito provável que a pobreza não seja mitigada em 2021”.

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