Antonio Cruz/Agência Brasil

Cerca de 200 mil pessoas que moram no Entorno trabalham na capital federal

Pesquisa demonstrou que 42% da população do Entorno trabalha no DF e enfrentam dificuldades em longos trajetos e preços altos do transporte público

A Pesquisa de Emprego e Desemprego (PEB) e da Periferia Metropolitana de Brasília, que abrange 12 cidades do Entorno, realizada na última quarta-feira (25), mostrou que cerca de 200 mil pessoas, enfrentam longos percursos e preços de ônibus mais altos para trabalharem em Brasília e correspondem 42% da população do entorno. São cidades como Águas Lindas, Luziânia e Valparaíso. Mais da metade delas, 56,6%, trabalham no setor de serviços. O perfil dessa população é composto de homem, 57,9%, e pessoas entre 25 a 49 anos, 67,5%.

Ao todo, 29,3% dos empregados na Periferia Metropolitana de Brasília são autônomos ou empregados domésticos, enquanto 41,2% possuem carteira assinada em empresa privada. Enquanto o salário mensal da população assalariada na capital federal é de R$ 4.285, a média do salário dos moradores do Entorno é de R$ 1.775.

Franquelino Ângelo Souza (49), técnico de manutenção, conta que existem muitas dificuldades de qualificação. “Moro em Águas Lindas, porque foi lá que consegui comprar meu lote, e vejo que só consegue trabalhar em Brasília quando a pessoa já é profissional, tem experiência. Quem está começando não consegue emprego”.

Para o presidente da Codeplan, Jean Lima, incluir essas cidades do Entorno no levantamento de emprego e desemprego do DF permite ter uma melhor visualização da realidade da capital. “Realizamos a pesquisa com dados da Área Metropolitana de Brasília para entender esse fluxo de pessoas, onde trabalham, qual o perfil delas, os empregos que ocupam, e, assim, poder auxiliar na formulação de políticas públicas para essas regiões”.

Transporte

Nas linhas de ônibus do DF, a passagem mais cara custa R$5,50. Nas linhas do Entorno, há locais em que a tarifa passa de R$ 10. Franquelino conta que é outra dificuldade que os trabalhadores precisam enfrentar.  “Quando alguém de Águas Lindas, Valparaíso ou alguma outra cidade de Goiás vai para uma entrevista de emprego, é praticamente obrigado a mentir e dar um endereço do DF, porque eles sabem que vão ter que pagar uma passagem mais cara, que a pessoa vai demorar mais a chegar no serviço. Graças a Deus, não foi o meu caso, mas vejo muito disso e um certo preconceito com quem vem do Entorno”.

A doméstica Iris Daiana (38), mora no Valparaíso e trabalha na Octogonal. “Quem mora lá e trabalha aqui sabe que tem muita coisa que dá para melhorar. O transporte público, por exemplo, é caro e vive lotado. Quem não tem emprego tem dificuldade de conseguir no DF e ainda mais no Entorno”.

Antônio Pereira Santos (50), morador do Céu Azul e terceirizado que presta serviço para o Senado federal, diz: “Sempre foi difícil conseguir emprego, mas agora, na pandemia, as oportunidades tanto em Goiás quanto em Brasília quase não aparecem mais”.

Desemprego

Entre setembro e outubro de 2020, a taxa de desemprego da capital diminuiu nas regiões de baixa renda, de 24,9% para 23,9%, e nas regiões de média-alta renda, de 16,4% para 16,0%. Ela aumentou no grupo de regiões de média-baixa renda, de 21,0% para 22,2%.

Qualificação

Segundo Thales Mendes Ferreira, secretário de Trabalho do DF, a qualificação é um caminho para combater o desemprego.  “A gente sabe que, quanto mais qualificação, mais condições a pessoa tem de disputar uma vaga no mercado. Por isso, temos feito várias ações na secretaria, como o programa Renova-DF, que dá aulas e bolsa de estudo no valor de um salário mínimo para 3 mil pessoas. Também iniciamos outro programa recente de qualificação e requalificação de pessoas, com 4 mil vagas, que foram procuradas por 11 mil inscritos. Esse é um dos nossos caminhos para combater o desemprego neste ano e em 2021”.

“A pesquisa mostra a necessidade de ter uma política pública mais estruturante, que é uma grande discussão há muito tempo. Na área da saúde, por exemplo, temos a realidade de que muitos moradores de Goiás precisam do sistema do DF. Observamos que a questão do preço da passagem é impeditiva. Então, há um alerta para gestores estaduais e federais, que precisam discutir uma política pública nacional de fomento ao emprego. Isso não pode ser pensado de forma egoísta, voltada só para o nosso estado”. Thales lembra as dificuldades que os moradores do Entorno enfrentam, mas que o levantamento facilita as interlocuções entre os governos do DF e os municípios do Entorno.

Área Metropolitana de Brasília  

É composta pelo Distrito Federal e por 12 municípios goianos: Luziânia, Valparaíso de Goiás, Novo Gama, Cidade Ocidental, Santo Antônio do Descoberto, Águas Lindas de Goiás, Planaltina, Formosa, Padre Bernardo, Alexânia, Cristalina e Cocalzinho.

A Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e do Entorno (Ride-DF), é mais ampla. Ela contempla 33 municípios, sendo 29 de Goiás e quatro de Minas Gerais, além do Distrito Federal.

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