Embora ainda não possa ser descartado, futuro político de Moro é incerto, avalia especialista

Decisão da Segunda Turma do STF pela suspeição de Moro no caso do tríplex desgastou a imagem do ex-juiz. Futuro político de Moro provavelmente dependerá da decisão do Plenário do STF sobre o mesmo caso

A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) declarou a parcialidade do ex-juiz Sergio Moro na condenação do ex-presidente Lula no caso do tríplex em Guarujá (SP). Com essa decisão, a imagem construída por Moro está desgastada. Para especialistas, apesar de todo esse desgaste, o ex-juiz ainda não pode ser descartado do cenário político para 2022.

Segundo cientistas políticos, Moro tem a opção de pular de cabeça na política e buscar defender o seu legado. Ou ele pode continuar atuando na iniciativa privada e se manifestar em notas, como tem feito, sempre que alguma decisão atinge a imagem da luta anticorrupção. Sua imagem já vinha sendo desgastada a partir do momento que pediu saída da magistratura para ingressar no governo Bolsonaro. Mais tarde, Moro pediu exoneração do cargo de ministro da Justiça, acusando Bolsonaro de interferência na Polícia Federal, causando perda de apoio dos apoiadores de Bolsonaro. Moro foi contratado como diretor de investigações de uma empresa de consultoria americana que representa a Odebrecht, um dos alvos da Lava-jato. Esse fato também levantou questionamentos sobre a isenção de Moro.

O cientista político Marco Antônio Carvalho Teixeira, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) explica que Moro, antes defendido por vários personagens na política que queriam vender a imagem de anticorrupção, hoje tem uma rede de apoio reduzida. O ex-juiz não é aceito por partidos de esquerda, de centro e nem de direita.  “Acho que só o Podemos continua sendo um partido que sinaliza para o Moro, mas não sei se com a mesma convicção. Ele continua popular, isso é inegável, aparece bem em todas as pesquisas, mas não tão bem quanto antes”, afirma.

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Para o professor, após a decisão do Supremo, além da imagem prejudicada na política, Moro agora perdeu o prestígio perante a sociedade. Tudo isso mostra que o ex-juiz terá dificuldade de se movimentar, caso decida lançar sua candidatura para presidente ou vice-presidente em 2022. “Antes de ele ir para o governo, era recebido em qualquer lugar. Hoje, experimenta um processo de isolamento”, diz Teixeira.

O analista Melillo Dinis, do portal Inteligência Política, vê o ex-ministro em uma encruzilhada e afirma que o melhor a se fazer é ficar distante da política. “A maior contribuição ao legado dele é ficar quieto. Só vai piorar a situação”, opina.

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Para o cientista político da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), Ricardo Ismael, Moro ser candidato não é uma boa estratégia para que defenda seu legado, visto que, o embate, agora, é jurídico. Segundo o cientista, Moro está desgastado e sofre ataques de várias frentes políticas distintas, o que vai dificultar a aceitação dele em alguma chapa. “Moro não pode ser descartado ainda, mas as condições políticas para ele, hoje, são muito difíceis para viabilizar uma candidatura”, avalia.

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Segundo o analista, caso a decisão da Segunda Turma seja mantida no Plenário, deve ser o fim político de Moro. Caso não seja mantida a decisão, ele precisará buscar apoio e analisar os prós e contras de sua candidatura. Essa decisão poderá ser revisada pelo Plenário no próximo mês.

Na opinião de Ismael, no caso de não confirmação da suspeição, Moro estará em uma encruzilhada: decidir sobre entrar ou não na política no próximo pleito. “Não dá para imaginar um candidato sob suspeição. Mesmo sem suspeição, já existe um desgaste de sua imagem. Isso terá de ser avaliado e pesado por ele lá na frente”, diz. O cientista político não vê o Legislativo como uma boa opção ao ex-juiz. “Ele teve muita visibilidade na Lava-Jato, mas, como deputado, será apenas um entre 513”, explica.

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