Especialista ressalta a importância do SUS mas destaca que é preciso reduzir as desigualdades

Rifat Atun, especialista em sistemas globais de saúde, fala sobre a importância da cobertura universal de saúde e analisa como a pandemia de Covid-19 modificou a forma como os países enxergam e estruturam seus sistemas de saúde

Em entrevista para a BBC News, o médico e professor de Sistemas Globais de Saúde da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, Rifat Atun, faz uma análise sobre a cobertura universal de saúde, com destaque para o modelo brasileiro representado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Atun traz experiência de ter trabalhado em vários cantos do mundo, inclusive na América Latina, onde lidou com os sistemas de saúde de Chile, Brasil e México. O médico também passou pelos países que compunham o ex-bloco soviético e prestou serviços na África, no Sudeste Asiático e no Oriente Médio.

Para Rifat Atun, é importante que um país tenha sistema único de saúde e que isso fica claro agora, durante a pandemia de coronavírus. Para ele, um sistema de saúde bem estruturado não é luxo. É algo que os países necessariamente precisam ter.

Questionado sobre o que define um sistema saúde na sua essência, o médico diz que podemos pensar na forma em como ele é organizado, governado e financiado. “Como os recursos chegam até a ponta e garantem bons profissionais, medicamentos e equipamentos? Na sequência, é preciso responder como toda a estrutura é utilizada pela população e quais são os efeitos disso em termos de saúde pública. É muito importante que os sistemas de saúde sejam efetivos, eficientes, igualitários e atinjam seus objetivos. A principal meta, claro, é sempre melhorar a saúde da população”.

Para Atun, independentemente de o modelo ser pago ou público, o mais importante é que o sistema de saúde seja eficiente, efetivo, igualitário e responda às necessidades locais.

O financiamento do sistema pode vir de fontes públicas ou privadas ou das duas ao mesmo tempo. Em países europeus, esse é um modelo muito comum. Nos EUA, cerca de metade do financiamento vem de fontes públicas, que pagam por programas como Medicaid e o Medicare. O restante é privado ou diretamente pelos próprios contribuintes.

Para o médico, não há um modelo ideal ou melhor e isso depende de cada sistema e de quais são as necessidades dos cidadãos. “Tipicamente, considero ideais os sistemas que atingem a cobertura universal de saúde e são igualitários, no sentido de oferecerem um serviço de qualidade a todos”.

SUS

Sobre a avaliação do Sistema Único de Saúde, Atun diz que um dos grandes méritos do SUS é que, em um período de 30 anos, o Brasil foi capaz de colocar em prática uma forte estratégia de saúde da família. “Essa política expandiu a cobertura de saúde para mais de 100 milhões de cidadãos no país. Isso trouxe muitos ganhos, com reduções significativas na mortalidade materno-infantil e ganhos no manejo de doenças crônicas e infecciosas”.

O SUS enfrenta muitos desafios. Para ele, o financiamento varia substancialmente de acordo com a região do país. Os três níveis de administração (federal, estadual e municipal) levam à fragmentação do sistema. “Muitas cidades brasileiras são pequenas demais e não têm capacidade de administrar os cuidados com a saúde de sua população de maneira adequada”.

Segundo Atun, o SUS vai bem numa série de métricas e parâmetros. A administração não é necessariamente ruim. Há outros países que adotam a mesma estratégia adotada pelo Brasil, como é o caso do Canadá, Rússia e Índia.

“O SUS trouxe inúmeras conquistas ao Brasil, mas ele pode ser aprimorado para reduzir desigualdades. Há muita disparidade em termos de acesso a serviços e isso traz impactos na qualidade da saúde da população”.

Pandemia

Para o médico, a pandemia nos traz lições importantes. A Covid-19 revelou uma magnitude dessa baixa qualidade dos serviços prestados. Muitos sistemas não foram capazes de responder de forma ideal. “ É só olhar para os EUA ou o Brasil, que acumulam centenas de milhares de mortes”.

Espanha, Itália e França, que são países com os sistemas de saúde bem avaliados, surpreendeu de forma negativa no combate à pandemia.

“Daqui para a frente, num cenário de crise financeira e desemprego generalizado, os sistemas de saúde terão uma missão ainda mais importante. Eles serão essenciais não apenas no campo da saúde, mas para a economia, a segurança e o próprio bem-estar social em todos os países”.

A Coreia do Sul, durante a pandemia, apostou em soluções digitais, com análise de dados em tempo real e uso de celulares para aumentar a sua capacidade de testagem e rastreio de contatos de pessoas potencialmente contaminadas. “Assim, esse país conseguiu colocar em prática políticas altamente efetivas de quarentena e isolamento social, de maneira a limitar a pandemia em seu território”.

A Alemanha também foi um excelente exemplo em combate à primeira onda da pandemia, com grande capacidade de usar seu sistema de saúde.

Para o médico as mudanças como as que ocorreram nesses países, como o uso e soluções digitais e telemedicina, são importantes e devem continuar a trazer benefícios, mesmo quando a pandemia acabar.

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