Comércio fechado na rua 25 de Março durante a quarentena.

Especialistas recomendam medidas restritivas mais rígidas para conter o vírus no país

Especialistas recomendam lockdown, mas admitem que o Brasil não tem condições para o sucesso da medida, principalmente por falta de um Plano Nacional

Com o aumento de infecções e mortes pelo novo coronavírus no Brasil, além da possibilidade de uma grande elevação de casos devido às aglomerações no fim de ano, especialistas afirmam que a adoção de um lockdown auxiliaria a combater a disseminação do vírus. No entanto, dizem que no Brasil a solução não é viável, porque não existe um plano nacional tampouco liderança do governo federal para a adoção das restrições.

Na Europa, países que já estão aplicando a vacina na população intensificaram o confinamento e fecharam serviços que não são considerados essenciais.

O estado do Amazonas e a cidade de Belo Horizonte resolveram aplicar restrições ao funcionamento do comércio, devido ao grande número de casos da doença.

Julio Croda, infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) diz que não há necessidade de lockdown no país, mas que medidas restritivas ajudam a combater a disseminação do vírus.

“Isso poderia ser feito avaliando o cenário epidemiológico e taxa de ocupação de leitos de cada região. Acredito que é importante ter medidas restritivas, mas tem de ser analisado neste sentido. A Inglaterra e a Alemanha fizeram porque o cenário epidemiológico é semelhante em todo o país.

O infectologista afirma que diante da postura do governo federal vem adotando durante a pandemia, sem incentivo a medidas de isolamento, a proteção por meio da imunização parece ser mais possível do que restrições de circulação da população.

“Lockdown é elevar o isolamento para acima de 70% e o Brasil nunca teve isso. As pessoas só podem sair uma vez ao dia para ir ao supermercado ou hospital. Nossa esperança é a vacina. Não teve lockdown no começo, não é agora que vai ter sem apoio do governo federal.”

Para o infectologista da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, Carlos Magno Fortaleza, a redução da mobilidade é uma possibilidade mais plausível do que o lockdown. Segundo ele, o modelo adotado na Europa não foi realizado no Brasil e houve tentativas frustradas.

“As cidades brasileiras que tentaram, como Fortaleza e São Luís, falharam porque conseguiram fazer no centro, mas não nas periferias. Lockdown é ideal, mas não é factível no Brasil, não com restrições ativas. O que se tenta é restringir por modelos passivos, para a população não ter para onde ir, que é a fase vermelha (em São Paulo).”

Para Fortaleza, se os casos evoluírem, é possível que se aplique restrições mais rígidas.  “Não está descartada a possibilidade de colocar todo o Estado em fase vermelha, mas não é algo que vai acontecer nesta semana. A depender do que aconteça nas próximas semanas, do resultado das festas, o fechamento dos serviços não essenciais é uma possibilidade não descartada com o crescimento abrupto e a chegada da variante inglesa.”

De acordo com Claudio Maierovitch, sanitarista da Fiocruz de Brasília, o governo não se atentou para a importância da implementação de medidas de isolamento social e não elaborou um plano nacional nesse sentido. Para ele, o plano deveria ter informações sobre quais estabelecimentos poderiam abrir, quem poderia sair e por quanto tempo, medidas de apoio para a população e para os outros setores econômicos.

“Já deveríamos ter feito vários lockdowns, assim como o Reino Unido está no terceiro e a Alemanha, em um longo segundo. Alguns governadores e prefeitos tiveram decisões que se assemelharam ao lockdown, mas não houve respaldo do governo federal e teve muita pressão econômica. O governo federal não só não respaldou como era contra. O governo desmoralizou a ideia de que este poderia ser um caminho para salvar a saúde e isso saiu da agenda política brasileira.”

Maierovitch teme o aumento de casos nos próximos meses. “O que está prevendo é que a curva vai subir muito mais rápido em janeiro e fevereiro. Se tivéssemos realmente um lockdown de duas semanas, a curva cairia rapidamente, desde que, depois, mantivesse uso de máscara e demais cuidados.”

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