Fila para entrada em agência da Caixa, em Brasília.

Fim de auxílio emergencial deverá elevar número de brasileiros em pobreza e extrema pobreza

A ausência de alternativa para substituição do auxílio emergencial deixa brasileiros na incerteza quanto ao futuro. Economistas preveem aumento do desemprego e da pobreza, além de desaceleração ecônomica

Segundo pesquisa do Datafolha publicada nesta segunda-feira (21) no Jornal Folha de S. Paulo, 36% das famílias que recebem o auxílio emergencial não têm outra fonte de renda. Milhões de brasileiros que hoje dependem dos R$ 300 para sobreviver estão sem saber como vão pagar as contas do próximo mês.

Segundo economistas, com o fim do benefício, a pobreza irá aumentar e irá provocar a desaceleração econômica brasileira no início de 2021.

Wenne Rodrigues da Silva (30) é uma das pessoas beneficiadas e já se sente desamparada.  “A gente vive desse pouco dinheiro que o governo fornece”. Ela está desempregada e cuida sozinha de dois filhos pequenos.

Raquel Cardoso (37), que é moradora de Valparaíso, está desempregada e é mãe de cinco filhos. “Não sei o que vai ser, tenho um bebê para cuidar e não posso deixá-lo sozinha para trabalhar, pois até hoje eu o amamento. Esse dinheiro foi o que garantiu a compra de comida, pagamento de contas básicas e o mínimo que precisávamos para sobreviver”, lamenta. Ela torce para que o filho mais velho consiga alguns bicos para levar dinheiro, ainda que pouco e incerto, para casa. Mas admite: “É triste estar na minha situação e não saber o que fazer”.

De acordo com o calendário de pagamentos da Caixa Econômica Federal, os depósitos do auxílio emergencial chegaram a quase 60 mi de pessoas.

Pobreza

Para Daniel Duque, economista e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre), a pobreza vai crescer e pode até dobrar no Brasil no ano de 2021. “O fim do auxílio emergencial vai colocar mais cinco milhões de pessoas na pobreza e na pobreza extrema, em relação ao período anterior da pandemia, porque o mercado de trabalho ainda está longe de se recuperar, principalmente para a população informal”, explica.

Duque calcula que a extrema pobreza, que considera as pessoas que vivem com menos de US$ 1,90 por dia e atingia 6,9% da população brasileira em 2019, caiu para 3,3% em meio à pandemia de covid-19 por conta do auxílio emergencial. Porém, pode alcançar algo em torno de 10% a 15% dos brasileiros no próximo ano, atingindo mais de 20 milhões de pessoas. Já a pobreza, que considera as pessoas que vivem com menos de US$ 5,50 por dia e atingia 24,7% da população brasileira no ano passado, deve variar entre 25% e 30% da população em 2021.

Segundo o professor de economia do Insper e CEO da Siegen, Fabio Astrauskas, o desemprego pode chegar a 20% em 2021. Ele explica que nos últimos 12 meses, 13,7 mi de pessoas saíram da força de trabalho e calcula que pelo menos metade desse contingente vai voltar a pressionar a taxa de desemprego devido ao fim do auxílio emergencial. “Há um grupo de desalentados que está fora do mercado de trabalho, porque sabe que está difícil encontrar emprego e está recebendo a ajuda do governo, mas que deve voltar a procurar uma vaga assim que o auxílio emergencial terminar”, explica o economista.

Segundo Astrauskas, boa parte dessas pessoas corre o risco de não conseguir um emprego logo no início do ano. “Não vamos conseguir gerar tanto emprego num curto espaço de tempo. Então, o aumento do desemprego será uma consequência direta do fim do auxílio emergencial”, alerta.

PIB

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, concluiu que o auxílio emergencial tem um impacto direto no Produto Interno Bruto (PIB). Ele calcula que o PIB poderia ter despencado 7,7%, neste ano, não fosse o benefício, que ajudou a impulsionar o consumo das famílias. Mas, diante do efeito positivo do auxílio, prevê uma queda de 4,3%. Vale acredita que a retirada do auxílio emergencial terá um impacto negativo de 2,4 pontos percentuais no PIB de 2021, já que vai desincentivar o consumo em um momento em que os brasileiros ainda sofrem com a pandemia e o desemprego. O economista prevê que a economia vá crescer 2,6% no próximo ano.

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