Fome na pandemia se agrava com redução das doações e ausência de auxílio emergencial

Pesquisa da BBC News aponta redução drástica das contribuições entre o início da pandemia e os dias atuais. Famílias e empresas reduziram doações por insegurança em relação à duração da pandemia e preocupação com as próprias finanças

Entrevista realizada por telefone pela BBC News Brasil apontou que o número de contribuições caiu drasticamente ao longo da pandemia e hoje, no auge da crise sanitária causada pela novo coronavírus, muitas famílias que moram em comunidades não têm o que comer. Nas últimas 24 horas, o país registou 3.869 mortes por covid-19, superando o recorde registrado na véspera, 3.780 vidas perdidas.

Ao telefone, a empregada doméstica Josinete Antônia da Silva (64), contou à BBC News que não havia nada em casa para alimentá-la. A filha, ao saber que a mãe não tinha o que almoçar, pediu para que os filhos dela comessem menos para que sobrasse para a avó. Ela falou: “hoje, cada um de vocês come um pouquinho menos hoje para ter comida para a vó também. E me mandou carne moída, feijão e arroz. Se não fosse ela, não sei o que eu teria feito”.

Ela recebe uma pensão no valor de um salário mínimo de 1.100 e mora com três filhas, que perderam o emprego na pandemia. Além disso, uma delas tem quatro filhos e está esperando outro.

Josinete contou que o dinheiro não é o suficiente para comprar comida para o mês. Da família, o único que trabalha é o filho, que mora de aluguel no mesmo bairro e faz trabalhos informais. “Ele me ajuda como pode. Está tudo muito caro. Vou ao mercado comprar feijão, arroz, uns pedacinhos de galinha, macarrão e salsicha e não gasto menos de R$ 100. O que pesa é a carne, o arroz e o leite, ainda mais morando com uma criança de 3 anos e outra de 9 meses. Tem dia que dá para comprar pão, outros não”, conta Josinete.

Na mesma casa moram três filhos e cinco netos. Ao todo, Josinete tem nove filhos, todos desempregados, 33 netos e sete bisnetos.

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Em 2020, logo no início da pandemia, ela recebeu cestas básicas e dinheiro para fazer a feira, mas no fim do ano essa ajuda diminuiu gradativamente até parar. Ela era ajudada pelo Instituto Casa Amarela Social. O grupo faz diversas campanhas para arrecadar doações.

“Eu tenho vergonha de pedir para outras pessoas, mas não (quando é) para meus filhos. Eu só peço misericórdia para quem tem um pouco mais (de dinheiro) se unir com os outros e ajudar quem não tem condições de sair dessa sozinho. O governo poderia ter mantido o auxílio emergencial em R$ 600, mas a gente não tem escolha”, afirmou.

Uma pesquisa realizada pelo Data Favela, em parceria entre o Instituto Locomotiva e a Central Única das Favelas (Cufa), em fevereiro, apontou que, entre os 16 mi de brasileiros que moram em favelas, 67% tiveram de cortar itens básicos do orçamento com o fim do auxílio emergencial, como comida e material de limpeza.

Outros 68% afirmaram que, nos 15 dias anteriores à pesquisa, em ao menos um faltou dinheiro para comprar comida. Oito em cada 10 famílias disseram que não teriam condições de se alimentar, comprar produtos de higiene e limpeza ou pagar as contas básicas durante os meses de pandemia se não tivessem recebido doações.

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Marmitex a cracolândia

A universitária Alessandra Monteiro pensou em uma forma de fazer ações sociais maiores e mais organizadas do que as doações que já costumava fazer.

“Eu disse isso para a minha amiga Viviane porque pensei que estava na hora de sair da minha zona de conforto. Eu tenho uma vida muito boa e precisava fazer alguma coisa para alguém”, afirmou.

Ela então mandou mensagem para uma professora que vende marmitas para as colegas e perguntou quanto ela cobrava para fazer 50 refeições. No dia seguinte, ela avisou aos amigos que faria uma ação e pediu uma colaboração de quem pudesse ajudar.

“Comprei as 50 e fiz as primeiras entregas no dia 19 de março na região da cracolândia, no centro de São Paulo. No mesmo dia, um rapaz pediu uma lona para se cobrir com a mulher dele e o cachorro porque eles estavam dormindo embaixo de um pedaço de madeira. Consegui a doação de uma barraca de quatro lugares para ele e vou agora comprar ração para o cachorro”, afirmou.

Após o sucesso com as doações os amigos criaram um grupo no Whatsapp com o nome “Faça o bem porque o mundo está mal”. Eles pretendem doar nesta quinta 100 marmitas e 100 garrafas d’água. “Daqui 15 dias, quero entregar 200. Nós somos pessoas comuns. Não somos ricos, mas damos um pouco do que temos para quem não tem nada”, disse à reportagem.

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De R$ 58 mi para R$ 800 mi

A diretora-presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis), Paula Fabiani, explica que houve cenários diferentes de doação em cada momento da pandemia.

“Primeiro, tivemos uma perspectiva que não duraria muito tempo. Se envolver em campanhas de doação foi algo que deu esperança à sociedade. Agora, temos um retrato diferente porque não sabemos quando vai acabar e isso gera cautela por parte das empresas. Elas, que foram o grande motor das doações, estão focadas hoje em proteger a sua própria saúde financeira e seus funcionários”, afirmou Paula.

Ela cita o movimento Unidos pela vacina, que junta várias empresas para buscar uma mameira de vacinar seus próprios funcionários.

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