Ford fechará fábricas no Brasil e economistas dizem que além da pandemia, Brasil não fez “lição de casa”

Fechamento das três fábricas brasileiras deverá deixar mais de 5 mil desempregados e economistas afirmam que a decisão é uma “ducha de água fria” em um ano em que se espera a retomada da economia

Nessa segunda-feira (11), a Ford anunciou que irá encerrar a produção de veículos em suas fábricas no Brasil após um século. As fábricas de Camaçari (BA) e Taubaté (SP) serão fechadas de imediato. A Instalação da Troller, em Horizonte (CE), ficará até o quarto trimestre de 2021. Pelo menos 5 mil pessoas ficarão desempregadas com essa decisão.

A fabricante, em comunicado divulgado para imprensa, diz que a decisão foi tomada “à medida que a pandemia de Covid-19 amplia a persistente capacidade ociosa da indústria e a redução das vendas, resultando em anos de perdas significativas”.

A Globo obteve uma carta da concessionária, em que afirmou que “desde a crise econômica em 2013, a Ford América do Sul acumulou perdas significativas” e que a matriz, nos Estados Unidos, tem auxiliado as necessidades de caixa, “o que não é mais sustentável”.

Falou também da recente desvalorização das moedas na região, que “aumentou os custos industriais além de níveis recuperáveis”. Mencionou a pandemia e a ociosidade nas linhas de produção, “com redução nas vendas de veículos na América do Sul, especialmente Brasil”.

“Essa decisão foi tomada somente após perseguirmos intensamente parcerias e a venda de ativos. Não houve opções viáveis”, concluiu a carta dirigida aos revendedores.

O que dizem economistas

Economistas ouvidos pelo R7 afirmam que o fim da produção de veículos no Brasil é uma “ducha de água fria” na economia em que se espera uma retomada.

Para a professora de economia do Insper, Juliana Inhasz, os impactos se dão de várias formas. Em primeiro lugar, trata-se de um indicativo de que um negócio não acredita que conseguirá tornar-se rentável no curto prazo.  “Isso sinaliza como a economia está e pode ser um indicador antecedente de como estará. Sinaliza que a gente tem problemas em restabelecer a economia”, afirma. 

Com as três unidades fechando as portas e a demissão de 5 mil empregados, há toda uma economia ligada a esses serviços, especialmente nessas localidades, o que levará a perda de postos indiretos.  “No momento que a gente vive, com quase 15 milhões de desempregados, ter mais um contingente de desocupados é preocupante”, afirma Juliana Inhasz.

Para ela, essa decisão é uma notícia ruim em um ano cheio de desafios. “O ano começou com a expectativa da vacina e vem esse anúncio. É uma ducha de água fria quando se espera uma retomada. Se não de imediato, que pelo menos as esperanças continuem aquecidas de momento”, avalia. 

O economista-chefe da Messem Investimentos, Gustavo Bertotti, diz que se trata de uma decisão negativa para o governo, que perderá com arrecadação. “São mais desempregados em um dos piores anos de recessão econômica. A indústria vem aos poucos melhorando indicadores. Ainda sofre com a falta de insumos, e recebe agora uma notícia negativa”, afirma.

Para o economista o fim da produção não é o suficiente para dizer que o ano será ruim, mas chama a atenção para a incapacidade de o país lidar com os problemas. Bertotti diz que além do impacto da crise trazida pela pandemia, a saída da Ford tem relação com o Brasil não ter feito a sua “lição de casa” para se tornar mais atrativo.

“A carga tributária é muito alta. A questão burocrática também pesa muito. A trabalhista também ainda pesa e, no ano passado, a agenda de reformas se perdeu com a pandemia, enquanto o endividamento aumentou”, diz.

Impactos no mundo

Em 2018, a Ford anunciou a reestruturação e disse que iria desistir da maior parte de sedãs nos EUA, incluindo Fusion e Fiesta, para ter linha com 90% de SUVs, picapes e veículos comerciais.

Além de demissões na Europa e nos Estados Unidos, a empresa fechou fábricas na Austrália e na França.

De acordo com dados da Anfavea, em 2020, a Ford vendeu 119.454 carros no Brasil. Isso representou uma queda de 39,2% na comparação com 2019, maior que em todo o segmento de automóveis, que foi de 28,6% ou 1.615.942 unidades .

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