Crivella liderava quadrilha que aproveitou a crise da prefeitura para cobrar propinas

Segundo investigações do MP, a falta de recursos da prefeitura para quitar todos os compromissos fazia com que fosse necessário escolher quais empresas seriam pagas. Com isso, havia oportunidade de se cobrar propina

Marcelo Crivella (Republicanos), prefeito do Rio de Janeiro, foi preso na manhâ de terça-feira (22) em uma operação conjunta da Polícia Civil e do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). Outras três pessoas também foram presas: o empresário Rafael Alves, o delegado aposentado Fernando Moraes e o tesoureiro da campanha de Crivella, Mauro Macedo.

Mensagens enviadas por WhatsApp pelo marqueteiro Marcello Faulhaber a Marcelo Crivella indica a existência de uma organização criminosa estruturada, segundo o Ministério Público do Rio. Para os promotores a conversa mostra que o publicitário teria registros de atos ilícitos durante a campanha eleitoral de 2016.

“Esse é um governo que rouba, que o prefeito sabe que rouba, e que mesmo assim não faz nada”, escreveu Faulhaber a Crivella.

Segundo o Ministério Público do Rio, as mensagens foram enviadas ao empresário Rafael Alves, que segundo a investigação é o integrante do “primeiro escalão” do grupo criminoso supostamente chefiado pelo prefeito.

“Eu tenho um bom arquivo com registros de tudo que aconteceu na campanha com o Mauro e a minha equipe”, escreveu Faulhader a Crivella por WhatsApp, referindo-se a Mauro Macedo.

“O seu Deus não é o Deus que eu respeito. O meu Deus expulsa os vendilhões do Templo. O seu é capturado por eles”, escreveu. Reclamou das promessas não cumpridas e anunciou o encerramento dos vínculos profissionais com Crivella. “De qualquer forma, pode ser que nos encontremos em campos opostos antes de futuras eleições”.

Quadrilha liderada por Crivella

Em 2018, a Prefeitura do Rio precisou escolher quais empresas seriam pagas devido às dificuldades que estavam enfrentando. Segundo o MPRJ, a crise foi vista como uma oportunidade: empresários de serviços não essenciais que pagavam propina seriam privilegiadas na hora do pagamento.

“A partir de 2017, especialmente em 2018, a Prefeitura do Rio enfrentou uma crise muito aguda, que foi lida como ‘oportunidade’ de receber valores espúrios. A partir do momento em que tinha, supondo, R$ 100 milhoes pra pagar e só R$ 70 milhões no caixa criava-se a necessidade de escolher quem pagar. Empresários que faziam serviços não essenciais recebiam os pagamentos mesmo nos momentos de crise e isso acontecia justamente por conta do pagamento de propina”, disse o promotor do Ministério Público Carlos Eugênio Greco.

Segundo o subprocurador-geral Ricardo Ribeiro Martins, o esquema movimentou pelo menos R$ 50 mi, apesar das “dificuldades” da prefeitura.

“Apesar de toda a situação de penúria (da Prefeitura), que não tem dinheiro nem para o pagamento do décimo terceiro, muitos pagamentos eram feitos em razão por conta da propina”, disse ele.

Após ter sido preso, Crivella disse ser vítima de “perseguição política”.

“A prisão se revela espalhafatosa e desnecessária. A defesa confia na pronta reparação desta violência jurídica”, disse João Francisco Neto, advogado de Rafael Alves.

Prisão domiciliar

Humberto Martins, presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), concedeu na terça-feira prisão domiciliar a Crivella, a pedido dos advogados do prefeito, que queriam a revogação da prisão. Para o presidente do STJ, a prisão preventiva é adequada, mas deve ser cumprida em regime domiciliar. No documento da decisão, Martins diz que Crivella tem 63 anos de idade, sendo considerado grupo de risco para a Covid-19. Com isso, o prefeito terá de usar tornozeleira eletrônica. Crivella seguirá afastado do cargo, que termina no próximo dia 31.

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