Manaus: caos no sistema de saúde provoca mortes por falta de oxigênio

Excesso de demanda por oxigênio causou colapso nos hospitais de Manaus. Hospital Universitário de Brasília se prepara para receber, assim como outros estados, pacientes que serão transferidos de Manaus

Manaus está vivendo um colapso devido o avanço de casos de Covid-19. No estado, os internados começaram a morrer por falta de oxigênio. A explosão de casos do vírus fez com que a demanda por oxigênio chegasse a 76 mil metros cúbicos diários. O governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), anunciou nessa quinta-feira (14) ações para o enfrentamento no número de casos de Covid-19 no estado. Uma das medidas é a suspensão do transporte coletivo de passageiros em rodovias e rios. Além disso, o toque de recolher nas ruas do estado entre 19h00 e 6h00.

Gabriela Oliveira, médica residente do Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV), falou que a falta de oxigênio deixa os profissionais desesperados ao verem os pacientes agonizando.

“O que eu vivi hoje, nem nos meus piores pesadelos pensei que poderia acontecer. Não ter como assistir paciente, não ter palavras para acalentar um familiar. Isso é uma coisa que vai ficar uma cicatriz eterna nos nossos corações (…). Já não temos mais saúde mental para lidar com a situação que Manaus está enfrentando. Hoje acordamos no nosso pior dia, a falta do oxigênio em algumas instituições nos deixou desesperados. É muito angustiante a gente não ter o que fazer”, afirma.

Jasem Orella, epidemiologista da Fiocruz do Amazonas, diz que os hospitais de Manaus viraram “câmaras de asfixia”. O epidemiologista afirma que a falta oxigênio e a necessidade de ventilação manual podem causar sequelas aos pacientes.

“Nós assistimos a parte dos hospitais de Manaus e das unidades de pronto-atendimento se transformarem em uma espécie de câmaras de asfixia, onde muitas pessoas perderam suas vidas, outras ficaram com oxigenação insuficiente, com ventilação manual, o que certamente pode resultar em sequelas gravíssimas.”

Venezuela

Na noite desta quinta-feira (14), o governo da Venezuela informou que irá disponibilizar oxigênio para atender os hospitais do estado do Amazonas.

A informação foi divulgada pelas redes sociais pelo ministro de Relações Exteriores do país Jorge Arreaza.  “Por instruções do presidente Nicolás Maduro, conversamos com o governador do estado do Amazonas, Wilson Lima (PSC), para disponibilizar imediatamente o oxigênio necessário para atender o contingente de saúde em Manaus. Solidariedade latino-americana acima de tudo!’, disse Arreaza.

Transferência

Nessa quarta, a cidade bateu um recorde: foram 2.221 novas hospitalizações só nos 12 primeiros dias de janeiro. O número é o maior do que o total de internações registradas em todo o mês de abril.

Manaus vai transferir 750 pacientes para outras unidades da Federação. O Distrito Federal, inclusive, segundo o Jornal Metrópoles, vai receber ao menos 20 pessoas na enfermaria do Hospital Universitário de Brasília (HUB).

Segundo o HUB, a expectativa é de que os pacientes cheguem à capital nos próximos dias. O hospital afirma que eles devem ficar em leitos de enfermaria. “A infraestrutura necessária foi preparada na Unidade de Pronto-Socorro do HUB, onde atualmente já funcionam 10 leitos exclusivos para pacientes com o novo coronavírus”, diz, em nota.

Cilindros

Na tarde de ontem, a Polícia Civil e a Polícia Militar do Amazonas prenderam um homem, que não teve a sua identidade revelada, por conduzir veículo com 33 cilindros de oxigênio. A Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) afirmou que, dos 33 cilindros apreendidos, 26 estavam carregados com oxigênio. Ele foi preso por reter produtos para o fim de especulação, segundo informou a SSP-AM. O nome dele e o da transportadora não foram divulgados.

“Os materiais apreendidos foram encaminhados na noite de hoje para unidades hospitalares de Manaus”, informou o delegado Bruno Fraga, diretor do Departamento de Polícia do Interior.

Ministro da Saúde admite Caos

Eduardo Pazuello, ministro da Saúde, admitiu hoje que Manaus vive colapso no atendimento de saúde e citou a diminuição na oferta de oxigênio para pacientes com Covid-19.

“Há uma realidade de diminuição na oferta de oxigênio. Estamos trabalhando para entregar mais oxigênio [no estado] e atender [as pessoas internadas].

“Manaus teve o pior momento da pandemia em abril do ano passado. Houve um colapso no atendimento, que foi revertido. Agora, estamos novamente numa situação extremamente grave em Manaus. Considero que, sim, há um colapso no atendimento de saúde em Manaus, a fila para leitos cresce bastante, estamos hoje com 480 pessoas na fila”.

O governo pediu ajuda aos Estados Unidos para tentar amenizar a rede de saúde do Amazonas. “A procura por oxigênio na capital subiu seis vezes, então, já estamos aí em 75 mil metros cúbicos de demanda de ar na capital e 15 mil metros cúbicos no interior. Estamos já com a segunda aeronave entrando em circuito hoje, a C-130 Hércules, fazendo o deslocamento Guarulhos – Manaus, e a partir de amanhã entram mais duas e chegaremos a seis aeronaves, totalizando ai algo em torno de 30 mil metros cúbicos por dia, a partir de Guarulhos. Nessa ponte aérea, existem também os deslocamentos terrestres”, afirmou o ministro.

Pazuello esteve em Manaus quatro dias antes de os hospitais ficarem sem oxigênio. No entanto, seguindo o discurso de Jair Bolsonaro, recomendou o tratamento precoce para diminuir os efeitos do coronavírus no Amazonas. O foco da visita foi a divulgação de tratamentos ineficazes, sem comprovação científica, como a cloroquina, ivermectina, azitromicina e outros para o tratamento do vírus.

Ele considera que esses medicamentos não matam ninguém e deveriam ser prescritos pelos médicos.  “Os diretores dos hospitais devem cobrar na ponta da linha da UBS como o médico está se portando. O cara tem que sair com um diagnóstico, até porque a medicação pode e deve começar antes dos exames complementares. Caso o teste depois der negativo por alguma razão, reduz a medicação e tá ótimo, não vai matar ninguém, agora salvará no caso da COVID-19”, disse o ministro.

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