Morte de policiais por Covid-19 reacende o debate sobre a prioridade para a vacinação

Nove policiais morreram na última semana e 19 desde o início da pandemia no DF. Entre todos os agentes da segurança pública, 35 já perderam a vida. Os agentes fazem parte dos grupos prioritários, mas não estão entre os primeiros da fila

Ao menos nove policiais militares perderam a vida para a Covid-19 no DF na última semana. No sábado (20), o sargento Wesley Pereira de Andrade, da reserva remunerada, e ex-integrante da Banda de Música da Polícia Militar do Distrito Federal, não resistiu às complicações causadas pela doença. Desde o último domingo (14), há uma crescente de mortes na corporação. Desde o início da pandemia, 19 PMs perderam a vida em decorrência da Covid-19. Segundo a PM, há 89 policiais infectados que estão afastados do serviço.  

“Aos familiares e amigos transmitimos as nossas mais sinceras condolências pela partida”, informou a PM no início da semana, por meio de nota.

Mais uma vítima

Nesta segunda-feira (22), morreu o 1º sargento Jorge Luis Pereira da Silva, do batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). De acordo com a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), o sargento não resistiu às complicações do novo coronavírus.

Em nota de pesar, a PMDF manifestou apoio a parentes de Jorge.  “Aos familiares e amigos, transmitimos as nossas mais sinceras condolências pela partida do nobre policial militar”, lamentou a corporação.

Números

Desde março do ano passado, quando houve o primeiro caso registrado da doença, 2.802 profissionais da segurança pública testaram positivo para a doença. Segundo dados da Secretaria de Saúde, desses, 35 perderam a vida. Apenas neste mês 253 trabalhadores da área foram diagnosticados com a doença.

Os profissionais das forças de segurança fazem parte dos grupos prioritários a serem imunizados contra o novo coronavírus no DF. No entanto, ainda não há data para a imunização desse público.

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Debate

Na quarta-feira (17), os deputados distritais discutiram a elevação do grau de prioridade de policiais e bombeiros, para receberem mais rapidamente a vacina contra a Covid-19.

O presidente da Câmara Legislativa (CLDF), Rafael Prudente (MDB), argumentou que “esses profissionais estão se expondo muito todos os dias desde o início da pandemia”.

O pleito foi apoiado pelo líder do governo na CLDF, João Hermeto (MDB): “Não é questão de corporativismo. A proporção de policiais que morreram, comparando com qualquer outra profissão, é muito alta”.

Fábio Félix (Psol), presidente da Comissão Especial da Vacina, explicou que integrantes das forças policiais e de salvamento já são prioritários, de acordo com o Plano Nacional de Imunização, mas após idosos e pessoas com comorbidades. “Não faz sentido vacinar policial de 40 anos antes de um idoso”.

Porém, o presidente Rafael Prudente explicou que seu pedido não é para interferir no público prioritário. “Quero deixar claro que se respeite a vacina dos idosos e em seguida possamos dar prioridade aos nossos policiais”, esclareceu.

Linha de frente

Assim como como profissionais da saúde, profissionais da segurança pública também estão na linha de frente no combate à pandemia do novo coronavírus no DF. Médicos, enfermeiros, técnicos, policiais e equipes do Corpo de Bombeiros convivem, diariamente, com uma realidade que coloca em situação de vulnerabilidade diante da Covid-19. Ao sair para desfazer festas clandestinas, aglomerações e proteger a comunidade, policiais se expõem ao vírus.

As forças de segurança estão com muita frequência em contato com o público em suas atividades, e muitas vezes encontra pessoas que não estão usando máscaras. Inclusive, em suas abordagens, aqueles que têm resistência ao uso de máscaras muitas vezes discutem com os policiais, elevando o risco de serem infectados.

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Vacina para a força de segurança em outros estados

Pensando na exposição desse segmento, o Pará é o primeiro estado do Brasil a vacinar os agentes de segurança pública. Eles, assim como os profissionais de saúde, estão na linha de frente do combate ao novo coronavírus.

No Pará, a vacinação começou neste sábado (20) em cinco pontos instalados nos municípios de Belém, Ananindeua e Marituba, na Região Metropolitana.

Em Bagé, no Rio grande no Sul, ao receber novas remessas de vacinas, o prefeito Divaldo Lara (PTB) colocou os profissionais da segurança pública, que estão na linha de gente e expostos a contaminação como prioridades do município. Esses profissionais receberam a primeira dose da vacina na nessa sexta-feira (19).

Revolta

Segundo informação da coluna Painel, do jornal Folha de S.Paulo, os secretários estaduais de Segurança Pública se revoltaram com a determinação do Ministério da Saúde para que presos sejam imunizados contra Covid-19 antes de policiais. Os gestores acionaram a pasta da Justiça sobre a priorização da população carcerária.

De acordo com o Plano Nacional de Imunização, os presos aparecem na 17º posição na fila da prioridade. Eles estão à frente dos agentes que trabalham no sistema carcerário e também das forças de segurança e salvamento.

O presidente do conselho de secretários estaduais, Cristiano Sampaio, secretário do Tocantins, lidera as discussões em torno priorização do Ministério da Saúde.

“Aqui no estado nenhum preso vai vacinar antes. Não existe isso. Aqui são 20 mil servidores da força, foram 32 mortes por Covid-19. Temos aqui cerca de 23 mil presos. Foram 5 mortes. Nem estatisticamente isso se justifica. Nossos servidores estão muito mais expostos, sem dúvida”, afirmou Rodney Miranda, secretário de Segurança de Goiás.

O documento do governo federal com o plano de imunização já tinha sido divulgado no fim de janeiro, mas ainda não era esclarecedor se a ordem era a mesma da lista. Por determinação do ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), a pasta decidiu colocar números ao lado de cada grupo para deixar claro que a lista se referia à ordem dos grupos prioritários.

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O presidente da Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal (ADPF), Edvandir Paiva, cobrou que o governo acelere a campanha de vacinação, “Nosso pessoal trabalha na linha de frente e está adoecendo, ficando com sequelas”, contou Paiva à coluna. “Estamos no grupo prioritário, mas a fila está muito lenta”.  

O presidente da associação dos delegados diz que a categoria não quer privilégio, mas apenas que a campanha de vacinação seja efetiva.

Sobre as repetidas declarações de Bolsonaro minimizando a gravidade da pandemia, Paiva comentou, “é a avaliação dele, mas acho que os fatos já demonstram o tamanho da situação em que nós estamos envolvidos”.

Os delegados do Rio cogitam entregar os cargos de chefia em protesto contra o governo Bolsonaro. “Não houve nada de concreto até o momento, mas essa movimentação existe e pode se espalhar pelo país”, admite Paiva.

A nota pública da entidade destaca que os policiais federais e demais profissionais da segurança pública chegam “a março de 2021 com ainda mais contaminados e mais óbitos, com tendência a aumentar ainda mais em razão das novas cepas do vírus que surgem e nenhuma previsão de vacinação”.

“Os policiais são essenciais para a sociedade e para as suas famílias, em que quase sempre são os provedores. Então reitera-se a pergunta: quando as forças de segurança pública serão vacinadas? Quando a população brasileira poderá ver também um horizonte mais promissor, uma perspectiva mais alentadora? Esperamos que logo essas perguntas sejam respondidas e as medidas necessárias sejam tomadas com máxima urgência”, finaliza o texto.

Negociações no DF

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No DF, em nota, a PMDF informou que conversa com o GDF para a inclusão dos militares no grupo prioritário da imunização contra a Covid-19.

Íntegra

“A PMDF vem operando tratativas junto ao Governo do Distrito Federal, o qual se mostrou sensível aos riscos a que a corporação se submete diariamente no policiamento ordinário e, também, durante a fiscalização das medidas impostas pelo GDF para a contenção da Covid-19. Diante disso, a PMDF aguarda uma sinalização favorável quanto à inclusão na lista de prioridades em função do grande risco de contaminação ao qual seus integrantes estão submetidos Ressaltamos que os protocolos de biossegurança estão sendo cumpridos por todos os policiais militares, bem como a distribuição de material de proteção e higienização continua sendo feita.”

De acordo com a Secretaria de Saúde do DF, profissionais da força de segurança fazem parte do grupo prioritário, conforme o Plano Nacional de Vacinação. No entanto, ” “devido à baixa quantidade de doses recebida, a prioridade inicial é o público idoso”.

“A pasta vem adotando cautela na ampliação do grupo prioritário de vacinação contra a Covid-19, justamente por entender a dificuldade na obtenção de doses de vacina neste momento, e também a prioridade estratégica em se garantir a segunda dose da imunização contra a doença, o que começou a ser feito no DF. Os grupos de vacinação serão ampliados conforme o recebimento de novas doses por parte do Ministério da Saúde”, informou, em nota.

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