Movimentos de esquerda e de direita se unem em manifestações pelo impeachment de Bolsonaro

Movimentos de esquerda e de direita e representantes da sociedade civil convocaram para este fim de semana atos pró-impeachment

Neste fim de semana, movimentos de esquerda e de direita e representantes da sociedade civil convocaram atos pró-impeachment do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em ao menos sete capitais e no Distrito Federal. No DF, o ato ocorrerá às 16h00 do domingo (24) na Praça dos Três Poderes. Organizadores pedem que os participantes usem máscaras e mantenham o distanciamento social.

Na manhã de quinta-feira (21), Bolsonaro afirmou a apoiadores que o aguardavam em frente ao Palácio da Alvorada, que “se Deus quiser, vou continuar o meu mandato, e, em 2022, o pessoal escolhe”.

Desde o início do mandato, foram protocolados 61 pedidos de impeachment na Câmara, apenas sete são anteriores a março de 2020, quando teve início a pandemia de coronavírus.

O pedido da saída de Bolsonaro já havia sido feito por diversos grupos, mas a crise da falta oxigênio no Amazonas e no Pará foi a “gota d’água” para organizar atos visando a queda do presidente. O colapso da saúde nos estados consta em um pedido de impeachment conjunto que está sendo elaborado por Rede, PSB. PT, PCdoB e PDT.

Em cidades como Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, a mobilização de esquerda está convergindo com a convocação iniciada na semana passada por grupo do movimento Acredito, grupo que não se diz de esquerda ou direta, mas como uma organização progressista. Dele fazem parte deputados federais como Tabata Amaral (PDT-SP) e Felipe Rigoni (PSB-ES) e o Senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE).

Integrante do movimento Acredito em Belo Horizonte, Lucas Paulino iniciou a mobilização pelo Twitter. Ele contou à BBC News Brasil que foi feito contato com o MBL tentando unificar as manifestações no sábado, mas o grupo de direita preferiu manter sua programação original.

A porta-voz do MBL, Adelaide Oliveira, disse à reportagem que a recusa não foi por divergência ideológica, mas pelo fato de o movimento reunir em São Paulo muitas pessoas do setor de comércio que trabalham e, por isso, preferem atos aos domingos.

Para Oliveira, é possível que no futuro grupos com diferentes visões ideológicas compartilhem a rua contra Bolsonaro. “Eu consigo imaginar plenamente a avenida Paulista com várias pautas (visões ideológicas) e a esquerda no seu lugar, no seu papel ali, em torno da mesma pauta (de impeachment do Bolsonaro)”.

A convocação do Vem Pra Rua e do MBL se coloca como apartidária e pede que os manifestantes levem apenas a bandeira do Brasil. Para a esquerda, esse tipo de postura “criminaliza a política” e alimentou a vitória de Bolsonaro em 2018.

Eles usam como exemplo os movimentos Diretas Já, que ocorreram no início dos anos 80 e uniu diferentes partidos e grupos políticos a favor do fim da ditadura e da volta da eleição direta para presidente.

“Propomos uma manifestação suprapartidária, que inclua todo mundo que é oposição a Bolsonaro, de forma plural, sem preconceitos, sem distinção ideológica. Eu acho que o ideal é que todo mundo esteja na mesma rua. A gente precisa construir maioria (em favor do impeachment), e a maioria não vai vir nem só da direita, nem só da esquerda”, diz Lucas Paulino.

“Gostaríamos de conseguir colocar na mesma mesa a CUT (Central Única dos Trabalhadores) e o MBL para conversar e sair dali com um consenso pra impeachment”, disse também Marco Martins, que está em contato com lideranças dos movimentos de esquerda e direita em São Paulo.

Imprensa

O Estadão chamou Bolsonaro de “o mais inepto presidente da história da pátria” no editorial “A alternativa a Bolsonaro”, em que vai direto ao ponto.

“Está claro para um número cada vez maior de cidadãos que Jair Bolsonaro não reúne mais condições de continuar na Presidência e que sua permanência no poder põe em risco a vida de incontáveis brasileiros em meio à pandemia de Covid-19, em razão de sua ignominiosa condução da crise”.

Na opinião do jornal, Bolsonaro “só se segura porque não foram reunidas condições políticas para o afastamento constitucional’, e por falta de alternativas.

Mourão

Caso Bolsonaro sofra um impeachment, quem assumiria seu lugar é o seu vice, Hamilton Mourão, general da reserva do Exército. Para Carmen Foro, da CUT, o ideal seria que o Congresso elegesse um presidente para concluir o mandato de Bolsonaro. Essa possibilidade só aconteceria se o Tribunal Superior Eleitoral (STE) caçasse a chapa Bolsonaro-Mourão. “Não acho que Mourão, que os militares, é a saída política para alguma coisa”, diz Foro.

Para Paulino, a aprovação da saída de Bolsonaro seria uma sinalização clara para Mourão “do padrão de conduta que não é tolerada para um presidente”.

“Então, se as bases jurídicas e políticas forem o extremismo antidemocrático do Bolsonaro e seu negacionismo científico, o Mourão já assumiria com essa bagagem e teria que agir de modo diferente para que não corra o risco de sofrer o mesmo processo”, afirma. “Mas temos que ver se ele vai romper com o presidente e apresentar uma agenda própria. O vice tem que se colocar para sucessão até para o êxito do impeachment no Congresso.”

Para Rogerio Chequer, do Vem pra Rua, não é a “qualidade” do vice que deve influenciar o andamento ou não de um processo de impeachment.

“A gente acredita que temos que ajudar no amadurecimento da democracia tirando aqueles governantes que não estão trabalhando para o povo, independentemente de quem seja o vice”, argumenta. “Não éramos a favor de Michel Temer (vice de Dilma), não estamos fazendo nenhum movimento pró-Mourão. O que estamos fazendo é tentar tirar do poder uma pessoa que é hoje uma ameaça para o povo brasileiro.”

Aprovação

Um levantamento divulgado nesta sexta-feira (22) mostra que a aprovação do governo Bolsonaro caiu de 37% para 27%, registrando a maior queda semanal desde o início do mandato. A desaprovação subiu para 45%, ante 37% em 14 de janeiro.

Segundo a pesquisa, 26% dos entrevistados não aprovam nem desaprovam, ante 24% no levantamento anterior. 4% não responderam.

Os dados fazem parte da pesquisa Exame/ideia realizada por telefone, entre os dia 18 e 21 de janeiro, com 1.200 pessoas.

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