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A perversidade do sistema

A perversidade maior, entretanto, está na própria maneira como isto é organizado, tornando as pessoas parte daquilo. Pois por sua maneira de se organizar e a maneira impositiva como é feito, por ser a forma de produção, faz com que quem esteja dentro deste faça parte daquilo, possua uma forte ligação com este.

07/06/2024 às 12h50
Por: Pedro Fagundes de Borba
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Cena rua;wikimedia commons
Cena rua;wikimedia commons

 Se for bastante fácil identificar os problemas do mundo e a sua brutalidade, pois uma rápida observação e percepção desta já denunciam fortemente a existência de todos esses problemas, podendo ser percebidos em diferentes sofisticações, algo que termina sendo percebido depois é que sua resolução é mais difícil do que parece e se gostaria. Os problemas podem ser identificados por qualquer adolescente ou mesmo crianças. No entanto, ver as várias outras contradições e aspectos internos deles é precisamente a parte mais densa e dolorida.

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Há certo senso comum de que o sistema é foda, no sentido de algo difícil ou de complicada resolução. Mas na verdade este na verdade é perverso. A crueldade sistemática, legitimada e feita por suas próprias estruturas reflete e demonstra essa perversidade presente, tudo aquilo que é feito socialmente. Alguns pontos de perversidade são mais visíveis, como o fato de haver fome, exploração, desigualdade, miséria e outros pontos. Não por algo natural, mas pela própria organização do sistema, capitalista. Sua organização, forma de ser, e a maneira como enquadra as pessoas e a realidade é muito perversa.

Isso sendo visíveis em vários níveis, até mesmo os infantis, as perversidades vai sendo visíveis e percebíveis em diversas formas. Sua própria organização feita para garantir o acesso de alguns a sua produção e o não acesso de outros, realidade que vem se aprofundando nos últimos quarenta anos, faz com que estruturalmente a grande maioria das pessoas não tenha acesso a isto, sendo uma exclusão pura e simplesmente. Nesta realidade o que fica muito forte é que essa estrutura é essencialmente ruim e incapaz de responder a estes problemas.

Porém, como qualquer coisa que seja estrutural, ela coloca e molda a realidade, logo todos os que nela estão inseridos e fazem suas vidas. Não tanto de maneira determinista, pois decisões e caminhos podem ser tomados dentro dela, ainda que seja muito difícil se afastar do setor ou do local em que se foi originado, mas sim pela própria maneira com que se organiza e ordena. Tudo fica coordenado e encaminhado para que suas formas e realidades continuem se reproduzam gerando novas gerações da mesma realidade. Nisto fica demonstrada a intensidade de tais estruturas. Mesmo aqueles que percebem sua existência pouco conseguem fazer, devido ao fato de estar naquilo envolvido. Se Rosa Luxemburgo tinha razão quando disse que quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem, quem se movimenta as sente e não consegue ir tão longe.

A perversidade maior, entretanto, está na própria maneira como isto é organizado, tornando as pessoas parte daquilo. Pois por sua maneira de se organizar e a maneira impositiva como é feito, por ser a forma de produção, faz com que quem esteja dentro deste faça parte daquilo, possua uma forte ligação com este. Em muitos sentidos, dele fique dependente. Nesta jogada política, se pode perceber os problemas e até apontar soluções, mas se estará muito envolvido nele, com diversas e complexas relações sendo mantidas. Ou seja, vendo todas as perversidades praticadas e feitas, a ação é muito limitada, com um entrelaçamento mais forte nesta própria lógica.

 Numa leitura mais filosófica, de filosofia política talvez, poderíamos especular que o sistema é perverso porque o ser humano assim é, portanto transferindo suas formas para suas organizações. Porém, embora haja aspectos desta natureza, o mais importante é pensar o sistema enquanto sistema, como estrutura real e coletiva, que se impõe e coloca, de maneira coercitiva. De maneira durkheiniana, tal forma de organização se coloca como algo real e colocada, uma organização existente. A perversidade dela é a própria maneira que ela existe, em sua forma de ser e a maneira como impede muitos e é com eles cruel. Tal perversidade só poderá ser enfrentada com mudanças internas emanadas do povo, modificando a estrutura social. Esta perversidade cairá por ações nossas.

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