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A morte na literatura

 Ao ousar literariamente romper este espaço, consegue fazer um profundo retrato da vida em seus sentidos e composições mais reais, mostrando o que ela é e realmente significa.

23/06/2024 às 13h04
Por: Pedro Fagundes de Borba
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Brás Cubas no filme de 2001, interpretado por Reginaldo Faria
Brás Cubas no filme de 2001, interpretado por Reginaldo Faria

Como um dos conceitos mais presentes na vida, bem como onipresente, a morte conseguiu um espaço forte na literatura. Muito pelo medo que dela sentimos, mas também por seus mistérios, por sua própria complexidade e incógnitas. A literatura, com sua capacidade de profundo retrato humano, ainda hoje o mais denso deles, pega os temas e ideias que afligem ou mexe com as pessoas, criando uma visão e uma expressão que nos permite ver o mais complexo daquilo, aquilo na essência mais certeira que tem também indo para aquilo que melhor podemos ver.

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A morte é presente na literatura de vários países, talvez a mais lembrada seja a novela de Liev Tolstoi, “A morte de Ivan Ilitch”, no qual é narrada a morte de um personagem, Ivan Ilitch, em sua agonia, em sua derradeira passagem, se encerrando quando este vai. A obra, muito bem escrita, consegue evocar o sentido e a postura da vida conforme a vida de Ivan vai sendo rememorada, o que este fez e deixou de fazer. Em si, consegue traçar um bom panorama da vida, mostrando como foi e o que deveria ter sido feito.

 Embora seja a mais lembrada, ainda não conseguiu atingir o ápice, o ponto nevrálgico da morte. Tal feito coube a um livro lançado poucos anos antes da novela russa, que foi o romance “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Nela o autor brasileiro vai além de Tolstoi em dois aspectos: ao invés de narrar alguém que está morrendo, parando em sua passagem, a narração trata de um personagem já morto, que por isto já passou. O segundo, derivado do primeiro, é o fato de romper a vida, não apenas pela morte do personagem, mas também pelo fato de já não estar vivendo, conseguir enxergar a vida de fora para dentro, ver o que ela é realmente. O que também lhe permite ser ácido e zombeteiro com os vivos e a vida. 

 Ao ousar literariamente romper este espaço, consegue fazer um profundo retrato da vida em seus sentidos e composições mais reais, mostrando o que ela é e realmente significa. Especialmente para seu personagem, o fidalgo Bon vivánt Brás Cubas. Membro da elite brasileira levara uma vida sem sobressaltos e sem grandes ações, apenas alguns furtivos amores, convivendo com outras pessoas desta mesma elite. Sendo um rabugento medíocre, mas com um muito contagiante sarcasmo, Brás torna-se assim alguém que passou pela morte, por isso agora escreve e fala da vida que teve, contagiando com sua maneira sarcástica de se por perante as coisas e os eventos de sua vida. Dessa forma, Machado conseguiu uma nova representação da morte na literatura, mostrando como um além, como algo que perpassa a vida e nos faz ver além dela, cercar e perceber o que é o vivo e a vida. 

A morte enquanto tema garante sua força e permanência justamente porque dela se consegue contrapor a vida, sintetizar e assim tentar entendê-la. Trata-se da principal angústia humana: o que é a vida e porque vivemos. O que para Albert Camus era essencialmente o absurdo, a falta de lógica e sentido na vida, pois dela não obtemos qualquer explicação para nada do que questionamos, tendo de nos contentar apenas com nossas conclusões, aqui adquire um som satírico. Que também faz com que vejamos a vida e a exploremos em seus termos mais estranhos e enigmáticos. O absurdo proposto torna-se na verdade um mistério, uma convicção de pouco sabermos da vida, por isso sempre concluímos e sabemos mais do que supúnhamos. Dela nós pouco sabem, por isso escrevemos, para enxergar o mais que podemos.  
       

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