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Golpe fracassado na Bolívia

Mesmo tendo sido uma boa reação, mostra-se como o fantasma do golpe de estado ainda ronda a Bolívia, e a América Latina como um todo.

28/06/2024 às 11h57
Por: Pedro Fagundes de Borba
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Presidente Luís Arce; (CC BY-NC 4.0) Mídia NINJA
Presidente Luís Arce; (CC BY-NC 4.0) Mídia NINJA

No dia 26 de junho de 2024, tivemos mais uma tentativa de golpe na Bolívia. Desta vez frustrado, ao contrário do que tinha acontecido em 2019. Isto pode ser pensado a partir tanto de uma instabilidade política interna quanto também por alguns movimentos de apoio internacionais. Os quais, por não terem vindo, frustraram o golpe. Aqui foi uma movimentação especialmente por parte do exército, provavelmente com alguns laços obscuros com burguesia e alguns setores bolivianos. Mas não teve hegemonia, não conseguiu maiores espaços, não escalou tanto quanto o general golpista, Juan José Zuñiga gostaria. Após uma tentativa de golpe com uso de parte do exército, Luis Arce, o presidente, resistiu, não desistiu. A população também o apoiou, expulsando os militares do palácio. Com boa resistência popular e a firmeza do presidente, a democracia ali se manteve.

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Para pensar este caso, juntamente com outros golpismos recentes na região, ver um pouco de retrospectiva boliviana, pensando além deste momento específico. O país, o segundo mais pobre da América Latina, perdendo apenas para o Haiti, possui uma instabilidade política e uma organização institucional grandes. Digo organização no sentido da maneira como é organizado o país, das relações institucionais nele presentes. Por uma série de fatores, formou-se tal organização e cultura política no país, fazendo com que seja mais frágil. Logo, quando há disputas políticas, em suas mais diversas orientações, a arena e os embates acontecem levando mais facilmente a reações armadas e um golpismo da oposição. O que se fortaleceu com os avanços e mudanças feitas por Evo Morales, interrompidas após o golpe de 2019 e retomadas com a eleição de Luís Arce. Tais medidas tendo desagradado poderosos setores bolivianos, além de uma cobiça internacional pelo lítio boliviano, motivam a ação de um golpe. O que, pelo fato de ser um estado fraco e também de, aparentemente, ter pouca oposição interna poderia ocorrer.

Porém, neste cenário, conseguiu se evitar tal golpe de ocorrer. Pelo presidente ter se mantido firme, mas também, e especialmente, por uma forte oposição popular, com apoiadores do presidente repelindo os golpistas do palácio, impedindo tal golpe de ocorrer. Arce também agiu bem e rápido ao prender Zuñiga e estampar sua prisão, mostrando o que ocorreria com novas tentativas de golpe no país. O que foi uma ação bastante enérgica e importante, que garantiu um retorno institucional. Apesar de ser mais frágil, a força popular e a legitimidade do eleito conseguiram prevalecer, mostrando sua força e garantindo continuidade.

Mesmo tendo sido uma boa reação, mostra-se como o fantasma do golpe de estado ainda ronda a Bolívia, e a América Latina como um todo. Como quintal dos Estados Unidos, sendo aqui a região do mundo onde este tem controle mais forte, quaisquer interesses que tem o império põe mais fortemente aqui, controlando politicamente e militarmente a região, impedindo que saiam daquilo que lhe interessa. Não se tem certeza absoluta se houve participação americana nesta tentativa, até por ter sido fracassada. Mas, seja como for, existe sempre um fantasma de golpe e ameaça no ar, muito fraco do fato dos países latino- americanos serem muito subordinados aos EUA, tendo pouca força política própria, tendo também muita conivência interna com as políticas dos Estados Unidos.

Tendo essa situação de fragilidade, que tem se mostrado um pouco mais resistente, torna-se sempre importante que se veja as raízes deste golpe. Pois ele vem justamente desta não aceitação da mudança políticas, das posturas e ideias junto de mudança no estado, de aprimoramento deste. O que desagradando à conjuntura tenta reagir. O oito de janeiro foi assim no Brasil e agora foi assim nesta tentativa de golpe. Ambas fracassaram, mas mostraram a presença do fantasma. O perigo de voltarem ditaduras como as das décadas de 1960 e 1970 não morreu, segue no ar. Disto se proteger segue um desafio constante.

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