Para pediatra não abrir escolas em 2021 seria um crime contra a infância e negligência absurda

Ele diz compreender o medo dos professores que trabalham sem estrutura, mas afirma que todos precisam cobrar investimentos públicos e provados para que elas sejam adaptadas para abrir

Lugar de Criança é na Escola é uma das mensagens principais lançadas por pediatras nas redes sociais. Um dos coordenadores do grupo é o pediatra sanitarista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Daniel Becker, que se diz preocupado com o momento de piora da pandemia no país, mas acredita que é preciso uma mobilização da sociedade para ter a educação funcionando.

Segundo o professor, as pesquisas mostram que as crianças se contaminam menos e transmitem menos o vírus. “A atividade não escolar tem mais risco que a escolar. Se a criança está indo com a mãe fazer compras, em loja, supermercado, tem risco maior do que se ela for à escola. Vamos acabar com essa ficção que escola é o lugar mais perigoso que existe”.

Ele afirmou que as pesquisas indicaram que as escolas são seguras e que crianças de cinco anos transmitem menos os vírus. É muito mais grave para uma criança pegar influenza do que covid. Um estudo realizado na Escócia, com 300 mil profissionais de saúde, mostrou que quanto mais filhos eles tinham, menor risco de terem casos graves da doença.

Uma das hipóteses é porque uma criança é pouco assintomática, tosse pouco e tem pouco catarro. Há também a questão celular, os receptores por onde os vírus penetram nas células. Existe também a imunidade cruzada, na qual a criança, por ter contato com muitos desses quadros por causa da escola, adquire a imunidade.

Para o professor, ficar perto de uma criança pode criar uma barreira protetora. Os casos e surtos em escola são quase sempre trazidos por adultos, em surtos entre adultos. ”Ao contrário do que se pensa, a escola não aumenta os níveis de transmissão comunitária, vários estudos mostram isso. Nova York fechou as escolas e acabou de reabrir por pressão enorme de cientistas, na Europa estão mantendo as escolas abertas porque é seguro”.

Ao ser questionado sobre o foco da campanha, Daniel Becker diz que o foco é a escola pública, já que a escola privada tem bastante recurso. “Na pública, as iniciativas de educação à distância foram pífias, a grande maioria não tem computador, nem celular para acompanhar, internet precária. Escola tem um valor fundamental para todas as crianças, em especial para as mais vulneráveis. É indiscutível e ninguém estava olhando para isso”.

“Os relatos dos professores de escolas públicas são dramáticos. Se alguma escola estiver aberta em março e abril, quando se tem alta estações de viroses, muitas crianças com febre, sem testagem, sem convênio com a saúde, sem protocolos, sem saber o que fazer, as escolas vão fechar em série. Vai chegar no final do primeiro semestre sem nenhuma aula. Ou vai ser um ano super precário ou um ano sem aula, isso é totalmente inadmissível”.

Ano letivo de 2021

Para o professor, seria um crime contra a infância e uma negligência absurda da sociedade se as aulas não forem retomadas no próximo ano. “ Quando tem um ano de perda de escola, tem perda de produtividade, de empregabilidade, de proficiência, uma queda gigantesca no PIB”. A OMS afirma que se 95% das pessoas usassem máscaras, evitassem aglomerações e fizessem um pequeno sacrifício de fechar bares e restaurantes, poderia voltar com as aulas normalmente. Para ele, as escolas deveriam permanecer abertas mesmo em lockdown, a não ser que tivesse uma catástrofe absoluta.

As crianças não devem ser mandadas para escolas em casos de grupos de riscos, que tenham doenças específicas, muitas dificuldades de usar máscara por questões neurológicas, que tenham alguém de grupo de risco em casa muito elevado, muito idoso, diabéticas, cardiopatas. “Não existe risco zero. Tem que avaliar risco e benefício. Claro que risco de uma vida é importante e superior a uma perda de escola presencial, mas isso também é muito relativo. Como a escola é um lugar seguro e bem estruturado, tem que avaliar caso a caso. Se uma criança tem idoso em casa e o risco de ela pegar é baixo, ela pode ir. Porque ela pode pegar influenza também, passar para o idoso e ter um caso gravíssimo”.  

Para o professor não tem como garantir que uma criança não vai pegar o vírus ao ir para a escola, mas uma criança corre mais risco de ser contaminada fora dela, pois ela continua fazendo as atividades com os pais. “Se essa criança está indo com a mãe fazer compras, em loja, supermercado, tem risco maior do que se ela for a escola. É mais uma vez uma questão de conduta de cada família, mas vamos acabar com essa ficção de que escola é o lugar mais perigoso que existe”.

De acordo com Daniel, não podemos depositar a esperança na vacina e quando ela chegar tudo vai terminar. Mesmo com a vacina, vamos ter que usar a máscara. “Vamos demorar muito tempo para vacinar uma parcela grande da população e as crianças vão ser as últimas a serem vacinadas porque são de menos risco. Não é de se esperar que a vacina vá trazer solução com relação a infância, o que vai trazer é melhorar as escolas, é ter uma conduta melhor como sociedade, ter um mínimo de cuidado com o outro, não indo em shows, eventos, usar máscara.”

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