Robôs auxiliam Bolsonaro na tentativa de reverter queda de popularidade

Robôs auxiliam Bolsonaro na tentativa de reverter queda de popularidade

A ferramenta Bot Sentinel mapeou um crescimento de 35 vezes nos posts produzidos por bots bolsonaristas no mês passado. Cientista político afirma que queda da popularidade do presidente, entre outros, ao abandono do combate à corrupção até o menosprezo e omissão em razão da pandemia

Segundo levantamento feito pelo jornal Correio Braziliense com base em número da plataforma Bot Sentinel, que analisa publicações na rede social por robôs, o número de postagens com hastags de apoio a Jair Bolsonaro (sem partido) deram um salto vertiginoso entre fevereiro e março. Há dois meses, a ferramenta mapeou pelo menos 1.392 posts produzidos por bots bolsonaristas, no mês passado foram contabilizados, no mínimo, 49.302. Um crescimento de 3.411%.  

A popularidade do chefe do Executivo vem caindo nos últimos meses. Março foi um dos meses em que esse número mais oscilou desde que ele assumiu a presidência em 2019. O mês de marco foi o mais letal devido a crise sanitária causada pelo novo coronavírus, com 66.573 mortes. O que também abaixou a popularidade de Bolsonaro foi a demora na aquisição da vacina para a população.  

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As publicações ganharam força no aniversário de Bolsonaro, 21 de março, e na data que marca o início do golpe militar de 1964, 31 de março. Só nesses dois dias, foram quase 14,1 mil posts escritos por robôs. As principais hashtags utilizadas foram #happybirthdaybolsonaro, #parabenspresidente, #deusabencoebolsonaro, #felizaniversariobolsonaro, #viva31demarço, #viva1964 e #viva31demarçovivaobrasil.

Quase 45% das publicações (21.780) aconteceram no intervalo entre 21h00 e 4h00. A interação dos bots pela manhã e durante a tarde foi bastante reduzida, ou seja, a atividade dos robôs foi mais comum à noite e nas primeiras horas da madrugada.

O cientista político Rodrigo Prando, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, acredita que o uso de robôs é um sinal de que o bolsonarismo se sente acuado em meio às pressões contra o presidente. “ (O bolsonarismo) está tentando não perder espaço na internet, território até hoje muito importante para o presidente. Na campanha de 2018, enquanto outros candidatos corriam para montar equipes nas redes sociais, Bolsonaro já as usava havia um ano ou dois. Portanto, ele sente que sua avaliação está deteriorando e tenta não perder espaço nas redes virtuais”, comenta.

“Segundo as pesquisas, houve um aumento de quem considera ruim ou péssimo e uma queda dos que consideram bom e ótimo. Essa manobra (dos robôs) visa tentar manter a hegemonia e a força do bolsonarismo. Mas há ainda o pensamento nas eleições de 2022, quando Bolsonaro vai buscar a reeleição de todas as formas. Seu projeto de poder depende disso”, diz o cientista político.

Vera Chemim, especialista em direito constitucional e mestre em administração pública pela Fundação Getulio Vargas, afirma que o uso de robôs pode não surtir o efeito esperado por Bolsonaro para as pretensões do mandatário de vencer as eleições do próximo ano.

“A princípio, o uso de robôs visa maquiar a queda de sua popularidade, decorrente de muitos erros e tropeços, desde o abandono do combate à corrupção até o menosprezo e omissão em razão da pandemia. Porém, caso não haja mudança de postura, em um momento mais próximo às eleições, nem robôs conseguirão fazer milagre no sentido de aumentar a popularidade de Bolsonaro, se ele insistir em continuar a fazer política na base do populismo e do toma lá dá cá”, avalia.