Segundo especialistas, Brasil está perto da terceira onda de Covid-19

O ritmo lento de vacinação e o afrouxamento da quarentena ajudaram a construir esse novo cenário

De acordo com especialistas, a terceira onda da Covid-19 está próxima de estourar no Brasil. Os Estudiosos ouvidos pelo portal UOL destacam que o ritmo lento da vacinação e o afrouxamento da quarentena nos estados podem colaborar para isso. Com esse mesmo cenário, os casos dispararam na Europa.

Mas o que define uma nova onda? “Onda de infecção não é um termo técnico e, por isso, não existe uma definição clara”, afirma o infectologista Renato Grinbaum, consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia). “Tem sido usada pela imprensa como aumento rápido e expressivo de casos novos na epidemia, que num gráfico aparece como uma onda”.

Professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, o infectologista Marco Aurélio Sáfadi reforça a ausência de “definição consensual”, mas cita a OMS (Organização Mundial da Saúde), para quem “o vírus tem que ser controlado e os casos caírem substancialmente”.

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A reportagem da UOL destaca que, em maio, a vacinação no Brasil caiu 17% em relação a abril. A principal razão para a queda foi a falta de insumos, que interrompeu a produção das vacinas CoronaVac pelo Instituto Butantan, e da AstraZeneca, da Fiocruz.

A queda afetou a segunda dose: sua aplicação despencou 43% entre a última semana de abril e a primeira de maio, com nova queda de 24% na semana seguinte. Segundo a Info Tracker, plataforma das universidades estaduais Unesp e USP para monitoramento da Covid-19.

“A recomendação do governo de utilizar todo o estoque de vacinas para impulsionar a imunização em abril foi pautada no pressuposto de que a produção dos imunizantes fosse contínua, o que não aconteceu”, diz Wallace Casaca, coordenador da Info Tracker.

No Brasil também há a circulação das novas variantes do coronavírus. Já se sabe que a cepa brasileira P.1, que se espalhou pelos estados, é mais transmissível.

“Como a P1 é mais transmissível, cremos que existirá número maior de infectados em caso de nova onda”, diz Ana Marinho, imunologista do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Além dessa cepa, recentemente, foram identificados no Brasil os primeiros casos da variante indiana, que tem sido relacionada à explosão de infecções no país asiático.

Segundo o infectologista Marco Aurélio Sáfadi, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, a chegada do inverno preocupa ainda mais. “Vírus respiratórios gostam de frio e têm sua capacidade de sobrevivência aumentada” nessa época do ano”, afirma.

Relaxamento da quarentena

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Como na Alemanha, o afrouxamento da quarentena resulta em novos casos no Brasil. O governo estadual paulista anunciou a ampliação das flexibilizações a partir de 1º de junho.

“As pessoas são os vetores da doença. Se elas ficarem distantes umas das outras por tempo suficiente, os números caem”, diz o cientista de dados Isaac Schrarstzhaupt, coordenador na Rede Análise Covid-19.

Ana Marinho, imunologista do Hospital das Clínicas de São Paulo, afirma que a baixa cobertura vacinal aliada à flexibilização da quarentena e às novas cepas do vírus formam uma combinação “que elevará o número de casos”.

“A redução do isolamento tinha de acontecer à medida que as coberturas vacinais fossem avançando, de forma coordenada”, defende.

Vírus e o inverno

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Sobre o vírus se espalhar mais facilmente no inverno, especialistas afirmam que não há pesquisa que garante isso. O que se sabe é “clima não barreira para o coronavírus”.

Ao UOL News, o médico e neurocientista Miguel Nicolelis disse que o Brasil não conseguirá lidar com uma nova onda de infecções.

“Temos um sistema de saúde que tomou dois tsunamis na testa, mal sobreviveu, e está em uma situação em que, se vier um terceiro [tsunami], nós não temos medicamentos, não temos leitos, não temos equipes de UTI. Não temos condição de dar conta de uma terceira explosão. E não temos vacina”, afirmou.

Para Schrarstzhaupt, da Rede Análise Covid-19, será tão difícil identificar a terceira onda quanto foi difícil enxergar a segunda, já que o Brasil não conseguiu controlar nem mesmo a primeira.

“Muitos afirmaram que não se tratava de nova onda, e sim da continuação da primeira. Outros afirmaram que, devido à falta de controle, uma onda se sobrepôs à outra”, diz.

Para Sáfadi, é como se o Brasil estivesse diante de um semáforo. ”Você não passa do verde para o vermelho diretamente. A gente agora está com o sinal amarelo piscando. É um momento de alerta, está avisando a gente. A interrupção na queda da curva de infecções indica que o sinal pode ficar vermelho a qualquer momento”.

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